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#Biografias#Literatura Brasileira

Mano

Por Coelho Neto (1924)

Tu é que és agora a minha inspiração, tudo me vem de ti e, assim como o teu corpo enche o âmbito da cova, a tua imagem ocupa a minha mesa, como se nela houvesse ficado impressa e a saudade, que é o que me resta de ti, enche-me a alma.

E tudo quanto imagino e busco traduzir em palavras ressente-se de ti - assim a água que brota de terreno mineralizado satura-se das substâncias que nele jazem e o ar que circula em silva em flor impregna-se de aroma.

Tornaste a minha mesa um campo santo. Nela demoraste horas: toda uma noite e toda uma manhã; dela saíste para o sempre, mas o que eu nela escrevo sente-se do que de ti lhe ficou. Às vezes, no silêncio da casa adormecida, trabalhando, ouço trepidações e uma voz que parece vir dentro de risos incitando a combate. E a mesa enche-se de soldadinhos e uma cabecinha trêfega, aureolada de cachos, agita-se nervosa... Cessa a trepidação, aquietam-se os soldados, a cabecinha inclina-se...

Ó visão do passado, espetro da ventura, saudade! E tudo se resolve; infelizmente, em tristeza e, em vez de vitória, terminada com o sono do guerreiro, sono de que ele acordava com o renascer da luz, alegrando em rumor a casa toda, o que eu, então, vejo, é a derrota, o corpo inerte que adormeceu para o sempre entre flores e círios.

E é tudo que me resta na mesa em que trabalho, mesa que era o meu império, o meu domínio, o meu alfobre feliz, toda a minha riqueza, onde eu semeava e colhia à farta.

E não havia chão mais fértil do que a tábua desse móvel.

Hoje... que se pode tirar de um cemitério?

Que se pode semear nos sete palmos de um túmulo?

Lágrimas não florescem e bom é que assim seja, porque seriam letais, como as da mancenilha, as flores que produzissem.

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