Por Raul Pompéia (1888)
“Ai não! aqui, tratante! “ gritou o diretor, indicando a porta do salão. Cantavase a oração do meio-dia, como sabem, na casa das recreações em dia de chuva, que alargava três boas portas para o pátio central. Aristarco estava perto da do meio.
De joelhos neste ponto, Franco, ao pelourinho: diante das chufas dos maus e da alegria livre de todos. Como esta porta era caminho dos rapazes até as bandejas onde se elevavam as pilhas sedutoras da merenda, ficava ainda o condenado com um reforçozinho de pena. Passando por ele, os mais enfurecidos deram empurrões, beliscaram-lhe os braços, injuriaram-no. Franco respondia a meia voz, por uma palavrinha porca, repetida rapidamente, e cuspia-lhes, sujando a todos com o arremesso dos únicos recursos da sua posição.
Até que um grande, mais estouvado, fê-lo cair contra o portal, ferindo a cabeça. A este, Franco não respondeu; pôs-se a chorar.
Os inspetores fiscalizavam o serviço do pão, prevenindo espertezas inconvenientes.
Escaparam-lhes os maus tratos.
As desventuras do pobre rapaz e as minhas próprias haviam-me levado para o Franco. Eu me constituíra para ele um quase amigo. Franco era silencioso, como arreceado de todos, tristonho, de uma melancolia parente da imbecilidade; tinha acessos refreados de raiva, queixas que não sabia formular. Os livros, causa primeira de seus desgostos, faziam-lhe horror. A necessidade de escrever por castigo promovera nele a habilidade dos galés: adquirira um desembaraço pasmoso na faina de encher de garranchos páginas e páginas. Esta interminável escrita fizera-lhe calos ao canto das unhas: meus dedos perderam o brio, dizia ele nos momentos de amargo humor, em que improvisava sarcasmos contra si mesmo.
A principio fugia de mim, resmungando coisas indecifráveis. Depois aceitoume. Mas não excediam as suas confidências o restritíssimo limite de uns grunhidos de aversão, histórias de desastres pândegos que sabia, ingênuas observações a respeito de assuntos infantis, referências de ódio aos superiores.
Uma vez recebeu carta da província, uma das poucas que lhe chegavam por ano. Depois da leitura percebi que tinha lágrimas nos olhos. O pranto era-lhe um acontecimento na fisionomia, invariavelmente de uma pasmaceira de máscara de arame. Interessei-me por aquele sofrimento; ele deu-me a carta a ler. O pai do Franco era um pobre desembargador desterrado nos confins de Mato Grosso, com oito filhos. Uma carta dolorosa. Fora entregue diretamente pelo caixeiro do correspondente, escapando à curiosidade do diretor, que gostava de espiar a correspondência dos alunos. Falava em vir à corte no fim do ano, com todos os sacrifícios, falava em encontrar o filho bom menino, educado, estudioso. Contava depois, entre exclamações consternadas, que uma filha, a mais velha, desaparecera do colégio onde estava, em companhia de um professor de piano, homem casado, sendo encontrada três ou quatro dias depois ao abandono. Em vão tinham feito perguntas à infeliz no interesse da punição do culpado; sepultara-se a mocinha num mutismo desolador, como se houvesse perdido a voz, recusando alimento, não tirando do chão os olhos desvairados, escravos da contemplação demente da vergonha.
— Como tem descido Sérgio, lastimavam os inspetores, palestrando a ordem do dia com o diretor, é o intimo do Franco.
Ainda que isso não fosse rigorosamente exato, não foi surpresa para mim ver o excomungado convidar-me para uma extraordinária empresa à noite. “Vingar-me da corja!” murmurava, gargarejando um riso incompleto e azedo. Isto à tardinha, depois da ginástica, no mesmo dia do processo da bomba.
Conseguira no lusco-fusco escapar à sala onde o haviam encerrado para a tarefa das páginas. E juntos eu e ele, porque eu lhe aceitara o convite com uma facilidade que ainda hoje não compreendo, galgamos um canto de muro que havia no pátio e saltamos para o jardim florestal.
Embaixo das árvores era já noite espessa. Demos uma volta no escuro acompanhando a curva de uma alameda. O Franco ia adiante calado, andando leve e rápido como uma sombra no ar. Eu o seguia irresistivelmente como sonhando, num sonho de curiosidade e de espanto. Que ia fazer o Franco? Aonde ia ele? Chegamos ao capinzal, a um de cujos lados extremos ficava a natação. Logo ao portão de ingresso nesse terreno, havia um depósito de lixo, onde os jardineiros acumulavam as varreduras da chácara, negrejando putrefatas, virando estrume ao tempo.
Franco deteve-se junto ao monturo. Sempre em silêncio e ativamente, como para não perder aquele raro estimulo de vontade que o impelia, foi examinando o lixo com o pé.
A um canto, entre tocos de bambu, tiniram garrafas. Franco abaixou-se e como em ação mecânica, sem se voltar, apanhou uma garrafa, outra e outra; foi-me dando, sobraçou ainda outras e prosseguimos, o Franco adiante, leve e rápido, sempre no seu andar de sombra, como suspenso e difuso na névoa quase lúcida do campo aberto.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.