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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

O duque soltou uma pequena risada, levantou a cabeça sorrindo, e encarou o íntimo. O olhar do fidalgo foi como uma sonda até o fundo da alma de Manuel. O íntimo sentiu um arrepio correr-lhe pela espinha dorsal, mas afrontou heroicamente o olhar e sorriso do seu amo. Dir-se-ia que na pele morena do rosto quebraram-se-lhe esse sorriso e esse olhar, como duas lanças numa couraça.

— Então, sr. Manuel, o senhor não me pode informar...

— Dentro de um minuto, posso alcan...

— Já sei... E se eu lhe disser que você, desde ontem, sabe de tudo?

— Desde ontem?... Não compreendo o que V. Exa. quer dizer...

— Eu quero dizer o que disse... você, desde ontem, sabe de tudo...

— Juro que... nem vi chegar o homem que devia trazer do palácio do sr.

marquês de *** as jóias...

Nova risada esperta do duque.

— Não vejo motivos para o sr. duque supor que eu minto...

— Ora... ora... Eu bem sei que você é a criatura mais santa que o céu cobre... — Lá isto, nem o sr. duque... — aventurou Pavia, entre sorrisos.

O senhor de Bragantina não deu ouvido à insolência açucarada do seu servidor...

— Pois eu digo que o sr. Manuel de Pavia, meu veterano confidente de segredos, sabe de tudo, desde ontem e, mais ainda, sabe onde estão as jóias desaparecidas...

— V. Exa. me chama simplesmente de ladrão...

— Ladrãozinho só — pilheriou o duque.

— Ladrão! — murmurou Pavia, afetando-se penalizado.

— Então, meu Pavia, você pensa que eu não o conheço?

— Se o sr. duque me conhece, por que deposita confiança num ladrão?...

— Num ladrãozinho — retificou o duque, no tom de chacota que assumira. — Depositei confiança em você, porque... é preciso que haja gente para tudo...

— O sr. duque fala de mim como um limpador de esgotos...

— Quase...

— Mas, sr. duque, perdoe-me a pergunta... Não tenho sido o maior fiel servidor de V. Exa? Não tenho buscado sempre satisfazer aos seus desejos? Não me tenho dedicado ao serviço sem olhar perigos? Cegamente, devotadamente... Não tenho até amargado vergonhas por causa de V. Exa?... Quem será capaz de prestar-lhe os meus serviços com maior limpeza e habilidade?

— Já sei!... Já sei! Mas a que vem isso?

— São títulos à confiança que mereço... Demais, quando roubei? O que tenho roubado?

— Ora, Manuel, cale esse bico... Você canta muito bem, mas não me ilude com os trinados... Lembre-se que eu não o conheço de ontem... Diga-me lá que você é um bom servidor... diga-me que sabe tratar as avezinhas como um temível caçador... que o seu emprego o expõe a vergonhas e sovas; diga-me enfim que os moleques dão um nome feio à gentinha preciosa de seu ofício... deite todas as cantinelas; mas não me pergunte o que roubou!... Você sabe que sou rico e não me enfureço, como o marquês meu filho, porque os ratos dão no saco de farinha... O que você tira eu dou-lhe de presente... não brigo... mas não quero que se faça de ingênuo... guarde a ingenuidade para enganar as meninas tolas... não a gaste comigo... Quando quiser saber o que tirou contra a vontade do dono, pergunte pelo piano da duquesa, pergunte pelas jóias de uma mocinha...

— Sr. duque, o senhor está cobrindo-me de insultos...

— Deixe-se de fingimentos, Manuel... Se estas coisas o ofendessem, você não seria o mesmo homem e eu saberia desde logo que você não servia para o emprego...

— Se tem necessidade de mim, aceite-me tal como sou, porém não me lance em rosto.

Pavia falava queixosamente, mas deixando entrever a ponta de uma ameaça.

— Eu o aceito tal e qual... Não pretendo reformá-lo, acredite. Quero apenas mostrar que o conheço profundamente... E, por isso, garanto que você sabe onde estão as jóias...

— Fui eu, então, o ladrão?...

— Você o disse...

— Sr. duque, vejo-me forçado a retirar-me do serviço de V. Exa.

— Quem o força?

— A minha honra...

— Palhaço! — exclamou o duque sorrindo de pouco caso. — Honra de...

— Todos têm sua honra, sr. duque... não é privilégio dos fidalgos, que aliás muitas vezes fazem dela vestimenta de gala para os dias de festa...

— Escute, Manuel, com paciência e não recalcitre. Quem se mete n’água tira a roupa. Cada um prepara-se conforme as exigências daquilo que vai fazer. Eu bem sei que todos têm amor à vida, entretanto, quem quer o soldo e as medalhas de campanha põe de parte esse amor. Todos têm sua honra, é verdade. Mas há serviços que não se dão bem com ela. A roupa não deixa nadar; a honra impede... — À vista disto... Sou mil vezes pior que um limpador de esgotos...

O duque abriu uma gargalhada, que concluía brilhantemente a argumentação desenvolvida contra o íntimo, e que caiu-lhe no rosto como uma bofetada.

Manuel de Pavia não se indignou; considerou-se apenas derrotado pela lógica e não repetiu a palavra honra.

(continua...)

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