Por Aluísio Azevedo (1880)
De tal momento, correu-lhe a vida mais fácil. Em pouco tempo, Miguel, cujos modos singelos e honestos atraíram incontinente sobre ele a cega confiança e simpatia dos seus protetores passou de mestre de música a servir de preceptor, acompanhava por gosto os pequenos nos seus passeios e afinal já lhes tinha amizade.
O bom rapaz desvelava-se em dar aos discípulos mais instrução do que lhe competia e até, digamos, mais do que podia - estudava durante a noite para instruílos pela manhã, com tão feliz êxito que, às vezes, gravava inalteravelmente na sua memória ainda fresca preceitos e fórmulas de literatura e belas artes, dos quais se esquecia o próprio mestre, que os não decorava. E por este sistema instruía com cabedais alheios; era, por bem dizer, o instrumento dos bons livros, mas o fato é que os pequenos se desenvolviam e tanto lhe bastava.
Os rapazes adoravam-no.
Não há como as crianças para tomar amizade à gente, e com esta cresce em geral a dos pais; os dos discípulos de Miguel estavam encantados com a boa aquisição que haviam feito. Um dia chamaram em particular o jovem preceptor, e, depois de lhe manifestarem o quanto estavam penhorados pelos seus bons esforços e pelo seu bom caráter, o quanto desejavam que Miguel continuasse em companhia deles, declararam que haviam deliberado aumentar-lhe o ordenado e fazê-lo morar em sua companhia e sob sua vista e cuidados - que Miguel era só e adoentado; que era preciso ter mais cuidado com a saúde e terminaram franqueando paternalmente ao professor um quarto cômodo e decente.
No dia imediato, Miguel e Castor estabeleciam-se em casa da família L...
Tinha por conseguinte o artista todos os elementos de uma felicidade relativa — teto, cuidados e estima. Agora possuía por bem dizer uma família; entretanto, tristeza contínua e carregada pesava-lhe deveras sobre o coração como a garra negra de um abutre. Embalde esforçava-se por esquecer de todo o pretérito e viver só do presente; embalde tentava plantar novas flores no terreno ressequido de seus afetos, que logo não rebentasse aí, sangrentas e truncadas, as raízes de sua antiga fortuna, porventura mais persistente e volumosa depois que se convertera em infortúnio.
E nesse definhar amargurado, via ele cair um após o outro, no passado, os seus dias pálidos e saudosos, sem risos nem esperanças.
De todos, procurava informar-se a respeito de Rosalina, e ninguém o esclarecia; da ilha haviam todos perdido de vista o pescador Maffei. Entre o homem rude e o homem rico, abrira o ouro largo espaço. De um lado, não se conheciam os que estavam do outro.
CAPÍTULO IX
E no cogitar doloroso da saudade, decorreram dois anos de desesperança, sem que fosse dado ao artista ter notícia da sua amada.
Já não parecia o mesmo — tornara-se trabalhador e grave. A vigília e o estudo avivaram-lhe na fisionomia os clarões da inteligência, com a mesma intensidade com que as sombras de constante tristeza lhe anuviavam no olhar a mocidade e o riso.
Bela e pensadora cabeça, quem te burilou tão sublime; a arte divina do homem ou a mão humana de Deus?
Muitas vezes o viam passar sombrio e automático, seguido dos seus discípulos e do cão; em tais momentos pendia-lhe para a terra a cabeça, como quem procura um canto onde descanse o último sono. E as pobres criancinhas, coitadas! olhavam para o mestre com os pequeninos corações estremecidos; as louras sensitivas choravam porque o viam chorar.
Num desses passeios, chegaram às ruínas da casinha branca; massa informe de pedras e barro denunciavam apenas o lugar onde crescera e brincara Rosalina. Era tudo enegrecido pelo fogo e silencioso pelo abandono; somente eles, para as bandas do mar, por entre o sussurrar das oliveiras, um pescador velho se lembrara de construir a sua choupana.
Derramava-se a hora do crepúsculo e da tristeza; os últimos clarões do dia abraçavam as primeiras sombras da noite — carícia contraditória da luz e da sombra.
Nada enternece tanto como, depois de algum tempo, voltar ao berço de nossa primeira felicidade; também não há decepção comparável à que experimentamos ao topar arrasado esse ninho de recordações e saudades. — Procurar um abrigo e tropeçar em ruínas, procurar um berço e despenhar-se na cova! Todo aquele nada respirava aniquilamento e tristeza; contudo, parecia haver uma voz mágica e sobrenatural que, semelhante aos fogos fátuos dos cemitérios, se sobreerguia trêmula e duvidosa das ruínas.
Miguel, hirto e arrebatado pela influência do fluído que exalavam os restos carbonizados da casinha branca, pascia neles o olhar ansioso, procurando compreender a voz misteriosa das ruínas, com a atenção de um septuagenário que procurasse soletrar na confusa inscrição de uma lápide, gasta pelo tempo, o nome do seu primeiro afeto.
E o seu olhas investigador, e o seu gosto cheio de interesse e ternura, e o som trêmulo das suas palavras quase inarticuladas, parecia dizerem:
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.