Por Eça de Queirós (1888)
rapidamente á enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o monogramma d'ouro sob a corôa de marquez. Quando o passou em silencio para a mão do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas.
Ega leu-o alto, devagar. Dizia: - «Como a Maria teve a pequena e anda muito fraca, e eu tambem me não sinto nada boa com umas pontadas, parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma declaração que te pertence a ti, minha querida filha, e
que só sabe o padre Talloux (Mr. l'abbé Talloux, coadjuteur à Saint-Roch) porque lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E é o seguinte: Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria Calzaski, por suppôr ser esse o nome de seu pai, é
portugueza e filha de meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu marido era meu
sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e tambem em Santa Olavia ao pé do rio Douro. O que tudo se póde verificar em Lisboa pois devem lá estar os papeis; e os meus erros de que vejo agora as consequencias não devem impedir que tu, minha querida filha, tenhas a posição e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro tudo isto que assigno, no caso que o não possa fazer diante d'um tabellião, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier a morrer, o que Deus não permitiu, peço perdão a minha filha. E assigno com o meu nome de casada - Maria Monforte da Maia.»
Ega ficou a olhar para o Villaça. O procurador só pôde murmurar, com as mãos cruzadas sobre a mesa:
- Que bolada! Que bolada!
Então Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o Villaça coçava a cabeça, retomado por uma duvida:
- Eu não sei se este papelinho faria fé em juizo...
- Qual fé, qual juizo! exclamou Ega violentamente. É o bastante para que elle não torne a dormir com ella!...
Uma pancada timida na porta do cubiculo fêl-o estacar, inquieto. Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou através da frincha:
- O snr. Carlos da Maia ficou agora lá em baixo no carrinho quando eu entrei, perguntou pelo snr. Villaça.
Houve um pânico! Ega, atarantado, agarrára o chapéo do Villaça. O procurador atirava ás mãos ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da Monforte.
- É talvez melhor dizer que não está, lembrou o escrevente.
- Sim, que não está! foi o grito abafado de ambos.
Ficaram á escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calçada; os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de não terem mandado subir Carlos - e alli mesmo, sem outras vacillações nem pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis bem abertos. E estava saltado o barranco!
- Homem, dizia o Villaça passando o lenço pela testa, as coisas querem-se devagar, com methodo. É necessario preparar-se a gente, respirar para dar bem o mergulho...
Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confissão da Monforte. Só restava que Villaça apparecesse á noite no Ramalhete ás oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos subir para a rua de S. Francisco.
- Mas o amigo ha de lá estar! exclamou o procurador, já aterrado.
Ega prometteu. Villaça teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde viera acompanhar o outro: - Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, tão contente, a jantar no Ramalhete...
- E eu, com elles, na rua de S. Francisco!...
- Emfim, até á noite !
- Até á noite.
Ega não se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de Carlos, a vêr-lhe a alegria e a paz - sentindo aquella negra desgraça que descia sobre elle á maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada. Depois, ás oito e meia, quando calculou que Villaça devia estar já no Ramalhete, deixou o marquez que se enfronhára com o capellão n'uma partida de damas.
Aquelle lindo dia, toldado de tarde, findára n'uma chuvinha miuda que transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, já terrivelmente nervoso, quando avistou Villaça no portal, de guardachuva sob o braço, arregaçando as calças para subir.
- Então? gritou-lhe o Ega.
Villaça abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo:
- Não foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que não me podia ouvir. Ega bateu o pé, desesperado:
- Oh homem!
- Que quer o amigo? Havia de o agarrar á força? Ficou para ámanhã... Tenho de cá estar ámanhã ás onze horas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.