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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Ega, que caminhava com a cabeça cahida, estremeceu como se acordasse. E começou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo córava na sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fôra o procurador que descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostaram muito d'ella, Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena...

E de repente indignou-se com estas invenções por onde arrastava já o nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:

- Emfim, nem eu sei, um horror!

- Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimarães.

E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte.

Só, no largo, Ega ergueu as mãos ao céo n'um desabafo mudo d'aquella angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua unica sensação, bem clara - era a indestructivel certeza da historia do Guimarães, tão compacta, sem uma lacuna, sem

uma falha por onde rachasse e se fizesse cahir aos pedaços. O homem conhecera Maria Monforte em Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo lazão; encontrára-a em Paris já fugida, depois da morte do primeiro amante, vivendo com outros;

andára então ao collo com Maria Eduarda a quem se davam bonecas... E desde então não deixára mais de vêr Maria Eduarda, de a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o irlandez; nos braços de Castro Gomes; n'uma tipoia de praça emfim

com elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodré! Tudo isto se encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de tudo resaltava esta certeza monstruosa: - Carlos amante da irmã! Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma janella aberta. Ega recomeçou a passear lentamente pelo meio do largo. E agora, pouco a pouco, subiu n'elle uma incredulidade contra esta catastrophe de dramalhão. Era acaso verosimil que tal se passasse, com um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada á mãi Cruges?... Não podia ser! Esses horrores só se produziam na confusão social, no tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem escripturada, garantida

por tantas leis, documentada por tantos papeis, com tanto registro de baptismo, com tanta certidão de casamento, não podia ser! Não! Não estava no feitio da vida contemporanea que duas crianças separadas por uma loucura da mãi, depois de dormirem um instante no mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem, descrevam as parabolas remotas dos seus destinos - para quê? Para virem tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! Não era possivel. Taes coisas pertencem só aos livros, onde vêm, como invenções subtis da arte, para dar, á alma humana um terror novo... Depois levantava os olhos para a janella alumiada - onde o snr. Guimarães decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porém esse homem com a sua historia em que não havia uma discordancia por onde ella pudesse ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto, parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraça, aclaral-a toda, mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provavel no fundo! Essa criança, filha d'uma senhora que a levára comsigo, cresce, é amante d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, é um homem. Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela Laferrière, flôr d'uma civilisação superior, faz relêvo n'esta multidão de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella fosse feia e trouxesse aos hombros uma confecção barata da loja da America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapéo côco, nunca se notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr. Guimarães passa, a verdade terrivel estala!

A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimarães adiantou-se, de boné de sêda na cabeça, com o embrulho na mão.

- Não podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.ª É sempre assim quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre!

- Perfeitamente, perfeitamente...

Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhára n'um velho numero do Rappel. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse vã, estendeu a mão ao snr. Guimarães. Mas o outro

(continua...)

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