Por Visconde de Taunay (1871)
Este combate, que pôs termo ás refregas do dia, não durou menos de uma hora. Não foram consideráveis as nossas perdas, um morto apenas e alguns feridos. Podíamos, pois, considerar como vantagem as provas que de sua firmeza, a proteger a bateria, nos dera o 20.° batalhão. Pareceu-nos o fogo paraguaio melhor dirigido do que até então, mas nossa gente não arredou pé. Eram, entretanto, simples recrutas valetudinários, saídos de Goiás, verdade é que comandados por valente oficial, o capitão Ferreira de Paiva. Ficamos sabendo o que podíamos esperar da coragem e da abnegação de todos para o resto da retirada. Neste ínterim, os membros da comissão de engenheiros estabeleciam a ponte. Trabalharam rapidamente, sob as vistas do comandante. Cumprimentou-os pelo serviço e foi o primeiro a passar. Todo o resto da coluna o acompanhou sem maior detença e veio acampar à margem direita do Apa-Mi. Mas já patrulhas de cavalaria paraguaia, que haviam atravessado o rio, a jusante de nós, estavam a observar-nos.
Caíra noite, profundamente escura. Estávamos estrompados de cansaço, a vista escura e o espírito abalado por tantas e tão variadas impressões cujas imagens acabavam por se confundir. Não houve quem armasse tenda ou barraca. Dormimos em grupos, formados quase ao acaso, de três, quatro ou mais, conchegados uns aos outros, cobertos em comum por capotes, ponchos, mantas, com quanto encontráramos; cada qual com o fuzil, o revólver ou a espada ao alcance da mão e o chapéu desabado sobre os olhos, para se resguardar do orvalho, tão copioso que tudo encharcava.
CAPÍTULO XI
Rebate falso. Últimas ilusões. O tenente Vitor Batista. Passagem do Apa. Volta ao território brasileiro.
Algumas horas mais tarde, cerca de meia-noite, ouvimos horrível fragor a que dominava um grito único: Cavalaria paraguaia! Abriram fogo as sentinelas avançadas.
Tornara-se o acampamento teatro de geral balbúrdia: tiros rasgavam a treva, deixando entrever formas fantásticas, ora de homens a empunhar o revólver ou o sabre, ora de animais, estes ainda mais perigosos, procurando por toda a parte como escapar, e numa excitação furiosa, ao passo que os seus guardas, não sabendo como os conter, pejavas os ares de imprecações.
Alucinante terror se apoderara do gado no sitio em que estava preso. Averiguada a causa de tal pânico pusemo-nos todos a rir, tornando-se universal esta hilaridade. Está a vida da guerra cheia dos mais inesperados contrastes.
O extremo frescor das noites de inverno, na América do Sul, mesmo entre os trópicos, obrigou-nos logo a voltar aos nossos improvisados abrigos onde as exigências do sono reconquistaram todos os direitos durante as horas decorridas até o amanhecer.
Aos primeiros albores pusemo-nos novamente a marchar, expostos ao fogo da artilharia inimiga, mas sem que nos detivéssemos em lhe responder. Levavam os nossos atiradores de vencida tudo o que diante deles achavam e não perdiam tiro. Haviam alguns cavaleiros inimigos caído, desde o começo da fuzilaria e seus cadáveres ficaram estirados, abandonados na estrada, não tendo seus camaradas tido tempo de os levantar e arrastar na carreira. Reconhecendo os nossos que um destes corpos era o de certo trânsfuga brasileiro, evadido de Nioac, muito antes da guerra, não foi possível, apesar de todos os esforços dos oficiais, subtrair os despojos deste miserável ao furor dos soldados. A medida que pasmavam o golpeavam com a espada ou a baioneta.
Encaminhávamo-nos para as ruínas da Bela Vista. Abria-se diante de nós largo vale, quase plano, tendo à direita um renque de colinas de suave declive. Teria o inimigo podido aproveitar-se, contra nós, desta disposição do terreno; mas chegamos a tempo de a utilizar, ocupando a primeira destas eminências. Dali o nosso fogo manteve os paraguaios a distância, enquanto marchávamos, e nossas peças iam sucessivamente ocupar os pontos que melhor podiam cobrir-nos. Esta manobra, pela precisão com que foi diversas vezes repetida, levou-nos sãos e salvos até um último cabeço que domina o Apa e Bela Vista. Ali nos estabelecemos, naquela manhã de 9.
Lá ainda ocupávamos a fronteira do Paraguai, embora batidos pelo pungente pesar de a deixar. Tão recentemente a havíamos atravessado, certos de realizar importante diversão, talvez até indispensável à causa da Pátria!
Nós nos sentíamos como corridos de vergonha, vendo nossas esperanças de glória tão cedo desvanecidas. Escapara-nos a presa e não queríamos ainda aceitar a absoluta necessidade de a abandonar.
Assim, pois, iria confinar-se à região dos sonhos a visão daquele território magnífico, aberto diante de nós, sob tão belo firmamento? Dali nos era, pois, indispensável sair, exatamente quando prováramos superioridade em armas? Faltavam-nos, não havia dúvida, as munições; mas de um momento para outro não poderíamos recebê-las? Já não tinham, desde muito, sido pedidas a Nioac? — Acaso cheguem, explicava um oficial aos seus camaradas, o Coronel, que ainda se não conformou com o pronunciar a palavra retirada, ordenará logo nova ofensiva. E assim devaneávamos sem ligar maior importância a todos estes pensamentos.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.