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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Venho dar-te os parabéns, Marcelina, pelo modo como castigaste teu filho. Aprovo muito esta teoria. A pena de detenção corporal, quero dizer a prisão, não repara o mal que vem do crime. Traz um constrangimento, um sofrimento físico ao delinqüente, mas é estéril, sem resultado. Com excepção do crime de morte, o qual nem pela pena de morte se pode reparar, todos os mais crimes podem achar justa reparação no trabalho. Ao crime de morte mesmo é possível ás justiças arbitrarem uma reparação razoável. Fizeste muito bem. e tu, Lourenço, não botes fora a lição, que de muito te há de servir na vida. Trabalha e tem fé na Providencia.

IX

Pouco distante do Cajueiro tinha Victorino sua casinha em um alto entre dois vales, por um dos quais desciam uns canaviais escassos que ai plantara, enquanto pelo outro apontava a roça graciosa que ele sempre trazia limpa e parecia sorrir feliz a todos.

Não foi preciso que decorresse muito tempo para que Victorino e Francisco se aproximassem, e suas famílias criassem relações. A família de Victorino compunha-se de sua mulher, por nome Joaquina, e de Marianinha e Bernardina, filhas do casal.

Levado da simpatia natural que lhe inspiraram Francisco e Marcelina, convidou-os Victorino para padrinhos de Marianinha, que contava por então seus três para quatro anos. Este novo laço veio estreitar mais as duas famílias matutas, que já se sentiam presas por mutuas inclinações.

Por isso, era natural – e assim aconteceu – que na primeira ocasião Francisco levasse Lourenço á casa do compadre, o qual já o conhecia da garapeira, e dele dera noticia circunstanciada aos seus.

Acharam ali o menino muito bonito, muito forte, e especialmente muito artista. Este ultimo dote de Lourenço não obstou porém a que tivessem logo para ele vistas particulares o pai e a mãe de família. No mato ainda hoje se contratam casamentos com grande facilidade e antecipação; ainda bem uma menina não se põe moça nem um menino rapaz, quando os pais falam em uni-los pelos laços do santo matrimonio e assim que atingem a idade necessária, os noivos são recebidos á face da igreja. O melhor é que essas uniões prematuras quase sempre produzem bons frutos. Contrariamente sucede nas cidades e capitais adiantadas. Aqui não direi os casamentos assim contraídos, mas até aqueles a que precederam longos noviciados, não são muitas vezes suficiente seguro de paz e felicidade no lar. Poucos anos depois da apresentação de Lourenço em casa de Victorino, já Marianinha, que desde os primeiros tempos sentira grande inclinação para ele, alimentava a esperança de ser sua mulher. Era isto o resultado das conversações particulares na casa do forasteiro, das comentações e gracejos das meninotas das vizinhanças, enfim das suposições dos conhecidos a quem não eram estranhas as relações das duas famílias.

Não tinha então Marianinha mais de doze anos, mas já pensava na falada união com tal constância e satisfação que só com isso se considerava feliz. Lourenço era o passarinho verde dos seus sonhos infantis, a feiticeira imagem que tinha o primeiro lugar nos seus brinquedos de bonecas, e lhe enchia o espirito de suavíssimo esplendor, de dia quando ela trabalhava, de noite quando se entregava ás enganosas cismas da primeira idade.

Ao menino já não sucedia o mesmo que á menina. Se estava alegre e brincão, bastava falarem no casamento, para que em seu rosto se mostrassem indícios de desprazer. Fugia, amuava-se, e só aparecia de novo dai a tempos.

Outras vezes vingava-se das finezas de Marianinha respondendo com demonstrações de pouco caso.

Eis o que aconteceu um dia em que se achou com Francisco em casa de Victorino, por ocasião de uma arranca de feijão.

Os dois dias anteriores tinham sido empregados neste serviço. Em frente da casa viam-se os couros estendidos sobre os quais Victorino, a mulher, as filhas, e seu sobrinho Saturnino tinham atirado a erva trazida ás braçadas da plantação.

Com três tigelas de feijão mulatinho, uma do feijão branco e outra do preto que Victorino plantara pela várzea que ficava do lado da casa e pelos pés dos altos que do outro lado a cercavam, esperava ele apanhar tantos alqueires que lhe dessem para todo o ano. Parece que o calculo não ficou longe da realidade, visto que no serviço da arranca andaram empregados durante dois dias todos aqueles braços.

Ao dar com os olhos sobre os grandes montes de vagens e ramas atiradas em cima dos couros, disse Francisco: - Sempre cuidei que eu bateria primeiro o meu feijão do que você o seu, compadre Victorino. Vejo agora que me enganei.

- É verdade, compadre Francisco.

- E boa apanha fez você. que putici! Dá bem seus dois alqueires.

- É quanto espero apurar.

- Mas parece que ainda era cedo para arrancar esta erva. Vejo ainda tantas vagens zarolhas entre as secas. Nem por isso. Ele já estava estralando ao sol mesmo no pé.

- Como está a comadre? Como passam as meninas?

- Nenhuma quer morrer, não, meu compadre.

- Fazem elas muito bem.

(continua...)

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