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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Esta cruel situação o acabrunhava, e por mais esforços que fizesse, não podia dissimular sua tristeza e abatimento aos olhos dos que com ele tratavam, e como a ninguém comunicara ainda a causa de seus desgostos, mais o afligia ainda o pensar que todos haviam de atribuí-los ao pesar de se ver traído por Lucinda.

Sua estada na Franca tornara-se-lhe insuportável; seu coração o chamava para a Uberaba e para a fazenda de Joaquim Ribeiro; mas que iria ele lá fazer, senão avivar suas mágoas vendo de perto um paraíso, donde um ente insignificante, um estólido trambolho, ou antes sua tola confiança em uma mulher o tinha expelido para sempre. E quem sabe se o amor que havia inspirado a Paulina duraria ainda, e se ela já não estaria para sempre unida ao lorpa do primo?

Mas também, pensava Eduardo, bem poderia acontecer que Paulina, a qual segundo tinha observado nenhuma inclinação sentia por seu primo, se recusasse obstinadamente a dar-lhe a mão de esposa, e que nesse caso Roberto desenganado e sem esperança, apesar da sua sandice não pusesse dúvida em desobrigá-lo de um juramento, que em nada lhe poderia aproveitar.

Assim passou Eduardo mais de um mês com o espírito agitado ao embate de encontrados pensamentos, pondo a imaginação em torturas em busca de um meio, que o arrancasse daquele estado de irresolução e tristeza que o acabrunhava. Sua mãe, que na maior inquietação assim o via cada vez mais preocupado e abatido, procurava em vão consolá-lo e distraí-lo: mas ela também como os demais ignorava ainda a verdadeira causa da contínua preocupação e tristeza de seu filho.

– Arre também com isso, Eduardo! – disse-lhe ela um dia em tom de branda repreensão; – não mostrarás um dia que és homem? já vou perdendo a fé contigo... Teus irmãos estão casados uns e outros espalhados por esse mundo; restavas perto de mim somente tu para consolo e amparo de minha velhice; mas infelizmente vejo que também não posso contar contigo...

– Ah! minha mãe, não fale assim; por que motivo?...

– Porque pensei que eras gente, que tinhas coragem e juízo. Agora vejo que não passas de um maluco e um moleirão; que não tens timbre, nem disposição para nada. A Lucinda anda por aí cada vez mais trêfega e garrida, rindo, pulando e saracoteando como nunca, e tu meu fracalhão, andas aí todo embezerrado e amuado como criança que apanhou bolos, sem ter ânimo de varrer da memória aquela sirigaita!... ah! meu filho, meu filho, assim tu me desesperas!

– Ah! minha mãe, como vosmecê se engana! eu faço tanto caso hoje de Lucinda como da primeira besta que comprei em Sorocaba, que já nem sei de que cor era.

– Deveras!... então que motivo tens mais para andar assim triste e sorumbático?

– Minha mãe não se lembra que no fatal dia em que aqui cheguei, procurando dar-me conselhos e consolações, entre outras coisas me disse: – não te dês por achado, finge mesmo que morres de amores pela linda uberabense?

– Oh! se me lembro!... como se fosse hoje, e é isso o que deverias ter feito logo.

– Pois bem, minha mãe; não é preciso fingir; eu morro mesmo de amores por ela.

– Deveras!.. tão depressa! tão longe dela!... como pode ser isso, meu filho?

– Também não sei lhe dizer, minha mãe. Quer-me parecer, que já a amava desde lá sem o saber. Apagou-se de meu coração o retrato de Lucinda, e por baixo dele achei gravado o de Paulina.

– É extraordinário; mas nem por isso posso compreender o motivo

por que andas triste. Queres bem a essa moça e ela na obrigação em que está para contigo, é impossível que te desdenhe, e o pai muito menos.

– Não me desdenha não, minha mãe; disso estou certo, e até creio que me quer muito bem.

– Pois então?... ela é rica, bonita e de boa família; tu também não és nenhum pé-rapado; vai lá, pede-a em casamento, que estou certa que não ta negarão; casa-te com ela e está tudo acabado. Parece até que a misericórdia de Deus estava armando as coisas deste jeito, para que nunca fosses marido daquela boneca de fogo – Deus me perdoe, – e tivesses uma mulher como mereces.

– Prouvera a Deus, que assim fosse! mas, ai de mim! não pode, não pode ser assim.

– Por que não, meu filho? quem te estorva?...

– São contos largos, minha mãe!

– Pois venham esses contos largos; tens porventura segredos para mim?...

– Nenhum por certo, e peço-lhe perdão por não lhe ter contado tudo há mais tempo.

Eduardo contou então a sua mãe fiel e minuciosamente, tudo quanto lhe acontecera na fazenda de Joaquim Ribeiro desde a caçada da onça até à sua retirada.

– Já vê portanto minha mãe; – concluiu ele, – que não me é possível por forma nenhuma pretender jamais a mão dessa moça.

– Ora valha-me Deus!... aí temos outra. Pois menino, não se está vendo pela pintura que me fizeste desse Roberto, que é impossível que a moça o queira para marido, e que te prefere um milhão de vezes? Que te importa esse paspalhão do primo? não sejas tolo; deixa-te de escrúpulos; vai lá, e pede-a em casamento, e dá uma figa a esse Roberto.

(continua...)

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