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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Ela tinha consciência disso, mas persistia em chamar ao sentimento que nos ligava, uma boa e santa amizade. As vezes, que eu ousava começar o nome doce e verdadeiro do meu afeto, seu olhar incisivo cortava-me a palavra nascente; a minha culpa era rigorosamente punida com alguns dias de uma indiferença completa. 

Naquela noite, porém, cuidei que era chegada a hora da minha ventura. Tudo mo anunciava. Essa entrevista alta noite, a solidão que nos cercava, os perigos que Emília afrontara para ir ter comigo, o sereno contentamento derramado por toda sua pessoa, e até a última palavra que proferira invocando a Deus; tudo isto não me dizia bem claro e com a eloquência sublime das paixões irresistíveis, que ela me amava? Pois bem, Paulo; ouvindo a minha trêmula interrogação, Emília demorou seu olhar sobre mim, e disse-me com uma placidez esmagadora: 

—Não; não o amo! Depois, como se quisesse abrandar a dureza dessa declaração, adoçou a voz para acrescentar: 

—Não o amo... ainda! —E nunca me há de amar! —Por quê?... Escute! Não se agaste comigo. Sou franca; disse-lhe que não o amo ainda, é a verdade. Virei a amá-lo algum dia? Só Deus o sabe. Sente-se aqui perto de mim ; vou lhe fazer uma confissão. Ajoelhei-me junto ao banco. 

—De joelhos? Mas eu é que devia estar, pois sou eu quem se confessa! disse ela rindo. O senhor me supõe um coração frio e egoísta... avaro de amor, como dizia. É o contrário inteiramente. 

Devia dizer um coração pobre, miserável de amor, mas ambicioso, mas devorado pela sede imensa... Amor! Amor! Não peço eu a Deus todos os dias que me encha dele esta alma? Tivesse-o eu, que lhe dera sem hesitar toda a minha vida, sem guardar para mim nem um instante dela! Tivesse eu essa opulência do meu coração, que então o senhor não me chamaria avara, mas pródiga e louca, porque eu sinto que o seria... Sim, louca, de minha louca paixão! —Eu julgava que tinha medo de amar? Creio que me disse. 

—De amar não; mas dessas ilusões efêmeras, que murcham o coração. Quero o meu bem vivo, para dá-lo todo a quem for dele senhor. Talvez aquele a quem o der o dilacere. Embora! Devem de haver delicias inefáveis neste mesmo suplício! Depois que supremo consolo!... Sentir o orgulho de só ter amado uma vez na vida!... 

Sentir que não restam do primeiro e único amor senão cinzas do coração extinto! Esquecido já do desengano que recebera há pouco, eu palpitava sob a palavra apaixonada de Emília, como se fora o feliz que devesse merecer tão sublime paixão! —Medo de amar? exclamou ela. Pois saiba que mãe nenhuma espiando o primeiro sorriso nos lábios do seu filhinho, teve os estremecimentos de ventura com que eu espreito o primeiro palpite do meu coração. Meu Deus, que júbilo imenso não deve ser o amor, quando a esperança dele nos enche assim de contentamento! Foi há cinco meses... quando o senhor voltou... Cuidei que ia amar. 

—A mim? —Sim, ao senhor. E desde então interrogo minha alma; escuto-me viver interiormente... Lembrei-me até de escrever o que eu sentia. Seria a história do meu coração. No dia em que ele me dissesse que eu o amava, sem que o senhor me perguntasse, sem o menor acanhamento, lhe confessaria. Acredite!... 

—E seu coração até agora nada lhe disse ainda, D. Emília?... 

—Meu coração diz-me que eu o estimo tanto como a meu pai; que o senhor ocupa uma grande parte da minha vida; que sua lembrança gravou-se e não se apagará mais nunca em meu pensamento; que as horas que passo a seu lado são as mais doces para mim; que nenhuma voz toca mais suavemente as cordas de minha alma. Eis o que me diz o meu coração; mas ele não diz que pelo senhor eu sacrificaria tudo, as considerações do mundo, minha família, as minhas afeições e os meus sentimentos; ele não diz que o senhor bastaria à minha vida, e a encheria tanto, que não houvesse mais lugar nela para outro pensamento e outro desejo. Não diz isto; logo eu não o amo!... 

—Mas, D. Emília, atenda! A senhora ilude-se talvez... 

—Sei o que pensa. Na sua opinião o amor assim é impossível! Pois juro-lhe!... eu só amarei assim. Emília ergueu-se. 

—Ao menos diga-me. Posso ainda ter uma esperança? —Eu a tenho!... respondeu-me. 

Se o mundo soubesse um dia a história que eu te conto, Paulo, ele exclamaria sem duvida: "É impossível! Essa mulher não existiu!" E o mundo teria razão. 

A Emília, de que eu te falo, não existiu para ninguém mais senão para mim, em quem ela viveu e morreu. A Emília, que o mundo conhecera e já esqueceu talvez, foi a moça formosa, que atravessou os salões, como a borboleta, atirando às turbas o pó dourado de suas asas. A flor, de que ela buscava o mel, não viçava ali, nem talvez na terra. Seria flor do céu?  


XIII 

HAVIA no tratamento de Emília uma variação incompreensível. 

(continua...)

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