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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que saírem da igreja, o marido leva-a para o colégio do Hitchings; e deixa-a lá como pensionista, enquanto ele vai a Paris aperfeiçoar-se na escola dos maridos.

"Esta senhora é uma sátira viva; sua conversa parece um fogo de artifício; dirse-ia que o seu gracioso traje é todo composto de alfinetes, que ela vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos açucarados, como confeitos de carnaval.

"Oculto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de Janeiro, e não quero comprometê-la com os noivos presentes e futuros das fazendeiras ricas."

Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com sua palavra elegante e chistosa, Horácio tomou o chapéu e retirou-se. Não eram nove horas; esta circunstância mais entristeceu Amélia, e mais excitou a atenção da moça maliciosa.

À porta da casa de Sales encontrou Horácio seu tílburi. Mandou o cocheiro esperá-lo no Largo do Machado, e ele, tendo acendido o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.

Horácio pertencia à escola daqueles que entendem, que nunca é tarde para arrepender-se o homem de um compromisso. Ele compreendia o alea jacta est por esta forma prudente e razoável. César, tendo lançado a ponte sobre o Rubicão, via de longe em Roma a ditadura, e mais tarde a púrpura imperial, portanto fez ele muito bem em passar, sobretudo desde que o rio já não opunha obstáculo. Mas se em vez do poder, César encontrasse no caminho a derrota, a ponte lançada lhe serviria para voltar às Gálias, e ele teria o cuidado de queimá-la depois que tornasse a passar.

Como César, ele tinha lançado a ponte com aquela palavra dita a Amélia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicão do casamento?

Era sobre tão importante questão que o leão queria refletir, fazendo a pé o trajeto entre as Laranjeiras e o Largo do Machado.

— O casamento é o suplício de Prometeu, pensava ele; um homem atado ao rochedo da família, com o coração devorado pelo tédio; uma criatura dividida em duas metades, que se contrariam a cada instante, porque estão ligadas. Em vez do romance, do idílio, do drama, a prosa monótona de uma história que se lê todos os dias. Esse prazer incomparável de sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu único eu, de dispor livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um biltre. O casamento dilata a superfície da alma; em vez de sofrer-se no seu coração apenas, sofre-se na mulher, no filho, e em cada um dos fios dessa grande teia humana que se chama família.

Horácio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou nessas reminiscências a prova de sua opinião.

— O casamento é tudo isso; mas que importa, desde que não há outro meio de realizar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar, pela felicidade que eu sonho. Pois se eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob hipoteca?

Tendo chegado ao Largo do Machado, o moço entrou no tílburi, que o conduziu a casa.

Aí, contemplando a mimosa botina, guardada como uma relíquia encheu-se cada vez mais da resolução que havia tomado.


CAPÍTULO  XI

Eram onze horas da manhã.

Amélia estudava ao piano os exercícios de Herz. As janelas cerradas deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das cortinas

Nesse crepúsculo artificial a beleza da moça tomava uns tons suaves e meigos, que mais seduziam.

Os lindos cabelos, ainda úmidos do banho, cobriam-lhe as espáduas de uma túnica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu desalinho matutino, conchegado à cútis, coloria-se com os reflexos rosados do colo mimoso.

Tanta graça e formosura, realçadas pela singeleza do traje e pela naturalidade da posição, ficavam ali ocultas na doce penumbra da sala e recatadas à admiração. Às duas horas Amélia costumava subir à sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho desaparecia, substituído por um traje mais apurado e elegante. Era a flor singela que o vento desfolha na mata e passa efêmera e desconhecida.

Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e gestos, e põem em contribuição a seda, a renda e a moda para realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são elas tão bonitas e feiticeiras como um certo momento de sedutora negligência, quando parece que a beleza desabrocha de seu gracioso botão.

A porta da sala abriu-se e deu entrada ao Sr. Sales Pereira.

O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que anuncia uma preocupação agradável. Trazia na mão uma carta aberta.

(continua...)

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