Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Hortênsia (À Leonina) — E amanhã a vergonha e a desonra...
Maurício (À Leonina) — Consentir neste sacrifício fora um verdadeiro crime; minha filha...não ousas falar...falo eu...
Hortênsia (Suspendendo Maurício) — E o estelionato, Maurício!...Salva teu pai, Leonina!
Leonina (À parte) — Oh!oh!...é muito! Eu não posso mais; meu Deus! Eu cumprirei o meu dever. (A Pereira) Senhor...comendador...serei...sua...ah! (Desmaia).
Maurício — Minha filha!
Hortênsia — Leonina...Ela torna a si...foi a emoção...o excesso de prazer...
Reinaldo (À parte) — Aquela conversa e este desmaio não podem ser de bom agouro para o noivo.
Pereira — Minha senhora, eu vou dever-lhe a felicidade da minha vida...
Leonina — Senhor...
Maurício (À parte) — Sou eu que sacrifico a pobre vítima!
Fabiana — Poupemos o pudor da noiva; é uma impiedade martirizá-la assim. (A
Frederico) Vai tudo às mil maravilhas para nós.
Frederico (À Fabiana) — Só um estúpido como o comendador deixaria de compreender o que se está passando.
Filipa — Não esqueçamos o baile: senhor comendador, Dona Leonina ainda não é sua; pertence-nos durante esta noite; voltemos ao baile; eu estou louca por encontrar de novo o dominó preto; já viram o famoso dominó preto?...
Pereira — Dizem-me que tem intrigado a todos; mas eu ainda não o vi, nem ouvi.
Lúcia — Nem eu, e ardo em desejos...
CENA XII
Os precedentes e Anastácio.
Anastácio — Pois ei-lo aqui, senhores!
Vozes — Oh! ainda bem! Ainda bem!...
Frederico — Todos estamos sem máscara; tira também a tua.
Anastácio — Ainda me assiste o direito de conservá-la no rosto.
Hortênsia — Sem dúvida,e pelo menos até a hora da ceia.
Frederico — Desse modo é fácil exercer uma certa superioridade; porque conheces a nós todos, e ninguém ainda pôde descobrir quem sejas.
Anastácio — Tanto melhor para mim; mas quem vos disse que vos achais sem máscaras?...engano, senhores, todos estais mascarados!... Reinaldo — Excelente! Excelente!
Pereira — Pois tira-nos as máscaras, dominó pretensioso.
Anastácio — Vós o quereis?...
Vozes — Sim! Sim!...
Filipa — É um máscara singular! Quando todos falam em falsete, ele conversa em baixo profundo!
Anastácio — Então aí vai: Maurício, a placidez do teu rosto é uma máscara; tu tens na alma o desespero. Também não te devias chamar Maurício, porque o nome que te cabe é a — Fraqueza.
Maurício — Oh!...
Vozes — Impagável! Impagável!
Anastácio — Hortênsia, a felicidade que ostentas é a tua máscara; porque o medo te oprime, e o remorso te despedaça o coração. Também não te devias chamar Hortênsia, o nome que te assenta, é a — Vaidade!
Maurício — Senhor!...
Anastácio — Leonina, és a única que não trazes máscara; porque o teu pranto e a tua aflição estão a todos dizendo que és uma vítima.
Pereira — Que pretendes significar com isso, senhor dominó?...
Anastácio — Comendador Pereira, a tua nobreza é uma máscara; porque tens tu mesmo consciência da tua nulidade. Também não te devias chamar Pereira, o nome que mereces é a — Fatuidade.
Pereira — É...é uma insolência!...
Frederico — Qual! É sublime!
Anastácio — Coronel Reinaldo...
Reinaldo — Dispenso...dispenso, absolutamente; eu e minha filha queremos guardar o incógnito...Anda, Lúcia...este dominó traz o diabo no corpo. (Vai-se com
Lúcia).
Filipa — Pois eu não o dispenso.
Anastácio — Pobre moça! Também a tua leviandade é uma máscara; porque sofres tormentos incessantes; não te devias chamar Filipa, o nome que te compete; é a — Inveja.
Fabiana — É demais!...
Anastácio — Frederico, esse alegre estouvamento que ostentas é uma máscara; porque a tua alma está enregelada pelo egoísmo, e o teu coração ressecado pela prática dos vícios. Não te devias chamar Frederico, o nome que te assenta é a — Libertinagem!
Frederico — Ah! Ah! Ah ! é incomparável, palavra de honra!...
Anastácio — E o teu agrado, a tua afabilidade, a tua lhaneza são uma tríplice máscara, Fabiana! Porque no teu espírito refervem negras idéias; não devias chamar Fabiana; o nome, que te define, é a — Traição!
Fabiana — Miserável!
Pereira — E
deixaremos assim impunes tantos insultos...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.