Por Eça de Queirós (1925)
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, húmido véu...
Esta precoce menina foi depois D. Júlia de Mendonça, esposa do meu chorado amigo Carlos Luís de Mendonça, hábil taquígrafo da Câmara dos Deputados. Não correspondeu, porém, a sua vida de mulher ao seu delicado sentimento de criança, pois, como é sabido, esquecendo o que devia a si própria, a Carlos Luís e à Sociedade, foi encontrada, na própria alcova conjugal, nos braços plebeus de um Alfredo, galã do Ginásio. E era tal a sua perversidade – estes pormenores não são indiscretos, pois que os dois esposos repousam no cemitério dos Prazeres – que tirava da gaveta do seu esposo as melhores camisas e as ceroulas mais finas, com que presenteava o abjecto comediante, que a seduzira pelos cabelos encaracolados e os olhos langorosos de trovador de balada. Ah! bem mal pagou os desvelos de sua mãe, que a educou no culto de tudo o que é fino e delicado, ensinando-lhe, de pequena, os poemas dos nossos melhores líricos, cercando–lhe a mocidade de exemplos tão elevados. Os cândidos lírios que tinham sido semeados naquela alma refloresceram mais tarde em venenosas plantas!
Aos sete anos, porém, era um pequenino anjo, dotado de extraordinária memória: e nada mais doce do que o meigo langor dos seus olhos, quando dizia, apertando as mãos contra o peitinho, onde decerto já se rosavam os dois frutos gémeos do seio:
Meiga Lua, os teus segredos
Onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
Das praias d'além do mar?
E mesmo o nosso Alípio, impressionado pela revelação de uma alma tão sensível num corpo tão franzino, não pôde conter uma exclamação:
– Bravo à Julinha! Há-de ser uma mulher de grande ilustração!
– Bravo, bravo!
E Julinha, devorada de beijos, passava dos lindos braços cheios de rendas da bela Fradinho, para os joelhos do respeitável coronel, que lhe dizia:
– Ah! sua pequena, essa cachimónia é que eu queria para a minha Catarina... Mas aquilo para versos é uma tumba...
– Pois é grande prenda, coronel...
– É grande prenda para a sociedade, Srª D. Vitorina... Mas a rapariga nunca teve memória, e eu nunca quis puxar por ela, porque é delicada, e filha única.
– Tem razão, coronel.
– Parece-me que tenho, Srª D. Vitorina.
Foi então que Alípio, que voltara para a saleta onde os homens fumavam, viu, com espanto, o Dr. Fradinho aproximar-se dele, pedir-lhe em nome das senhoras que recitasse «alguma coisa» ao piano, e, sem quase lhe dar tempo a colocar no parapeito da janela o charuto meio fumado, arrastá-lo para a sala, exclamando: – Aqui o trago à força! ... E agora é obrigá-lo!
Debalde Alípio expôs que a seriedade dos seus trabalhos não lhe facultara nunca a oportunidade de decorar as poesias sublimes dos Garretts ou dos Castilhos... Não aceitaram a desculpa. Custava a compreender, realmente, que um bacharel formado não soubesse alguma poesia bonita, de mais tendo, durante anos, dirigido com tanta eloquência a Bandeira Nacional! Não, as senhoras não lhe perdoavam. Ali estava a D. Luísa ao piano, com o pezinho no pedal dos graves! Era necessário ser complacente! Era dia de anos – e de folia – como disse padre Augusto.
Alípio via, em redor, rostos abertos num riso de admiração antecipada, e parecendo-lhe que os olhos de D. Virgínia, cujos cabelos loiros o tinham impressionado, se fixavam nele com uma suplicação quase tocante, apoderou-se das costas de uma cadeira, e depois de passar o lenço sobre os beiços, disse com gravidade:
– Eu obedeço a V. Ex.as . Somente devo dizer que não sou recitador. E apenas por comprazer... Em Coimbra, às vezes, por brincadeira, recitava, mas, realmente, não tenho nenhuma poesia estudada... Enfim, vou dizer Ciúmes do Céu, do nosso chorado Gomes Guiães.
A bela Fradinho feriu o teclado, e Alípio começou estes formosos versos, que um acompanhamento doce, gemente e triste, acentuava deliciosamente:
Recordas-te, Elvira, dessa praia triste
Onde passeámos, uma noite, sós?
O luar brilhava sobre o mar quieto,
E tu murmuravas, a tremer-te a voz:
Para que levantas, sem cessar, poeta,
A fronte, e contemplas a Lua sem véu?
Não vês tu, poeta, dentro dos meus olhos,
Segredos mais fundos que os que tem o céu?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.