Por Eça de Queirós (1870)
As palavras do alemão acabavam de lançar no meu espírito a luz súbita de uma revelação que me obrigava a meditar.O que se passava por mim, o mistério que me cercava, o cadá ver que vira, a presunção
— ainda que vaga — da concorrência de um ou mais amigos meus envolvidos nesteacontecimento, tudo is to era tão extraordinário e tão grave que eu não ousava referi-lo ao homem desconhecido que o acaso me deparava por vizinho.
Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qualera a rua e a casa em que estava: não me ocorria, porém, um pretexto plausível para levar o alemão a dizer -mo, sem que eu o interrogasse de um modo ambíguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigo sas para a segurança das pessoascomprometidas neste negócio. Contentei-me, pois, em alegar o incómodo a que me obrigava aposição em que estava, e dei as boas-n oites ao meu vizinho. Ele des pediu-se batendo nomuro três pancadas espaçadas por pausas iguais às daquelas com que eu primeiro lhe despertara a atenção. Lembrou-me que poderia ser mação aquele homem, e que nas circunstâncias em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome dejuramentos recíprocos e de compromissos comuns. Dei-lhe então uma letra, ele respondeume com outra e assim construímos sucessivamente a palavra da senha:- Salut, mon fre`re! — exclamou ele.- Segredo! — disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me dera.Fechei em seguida o armário, cheguei a cama para o lugar de onde a tinha removido, e deitei-me vestido.Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.
Nesta casa, debaixo destes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e belo, que entrara aqui, cheio talvez de es peranças, de alegrias, de projectos no futuro, e quede repente caiu para todo o sempre envenenado por mão misteriosa, ignorado, des conhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da família que oacarinhou em pequeno, longe dos lugares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pai angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira bênção.Desventurado rapaz! Quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o teu corpo inerte, impassível,mudo como a interro gação de um enigma posto anonimamente no meio de uma págin a branca? Quem sabe os pensamentos que a morte imobilizou no teu cérebro? Quem sabe os afectos que ela enregelou no teu coração, onde há pouco tempo ainda golfava abundantemente a fecunda seiva dessa mocidade esterilizada e extinta agora para sempre? Pobre moço! Tão digno de lástima como és, merecedor talvez de profundas saudades, aí estás adormecido no teu sono eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem,estirado num sofá, insensível para sempre às alegria se às amarguras desta vida miserável; e não haverá, porventura, uma só lágrima que come more, na história breve da tua passagem na terra, este prazo tão pungentemente melancólico em que os mortos estão esperando dosvivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade pode dispen sar àqueles que mais preza e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento!Os olhos daqueles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo sono tranquilo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão, porventura, fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passoretardado, ouvir-te a voz cantarolando a última valsa que o baile te deixou no ouvido, ver-te finalmente aparecer, descuidado, risonho e feliz.Coitados!... Os passos daquele que ainda hoje talvez se despe diu de vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais à voz que o chame; os seus olhos nunca mais seembeberão nos olhos que o fitavam; os seus lábios não voltarão outra vez a aproximar-se dos lábios que se colavam nos dele!Eu não choro a tua memória, porque não te conheço, porque nunca nos encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero in sultar a dor que adeja sobre a tua morte, deixandome dormir na mesma casa em que jazes insepulto, enquanto alguém te espera vi vo nomundo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.