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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Na véspera da sua chagada Machado escrevera-lhe uma carta, polida, quase humilde, em que se percebia mesmo certo tom de tristeza; dizia-lhe que ia voltar, que no dia seguinte apareceria no escritório, e que esperava que toda a idéia do passado desaparecesse nas suas novas relações, e que estas fossem sempre dominadas pôr uma respeitosa cortesia; acrescentava que compreendendo porém as dificuldades desta nova situação, ele só a aceitava pôr algum tempo para salvar a dignidade e fazer calar a maledicência, reservando-se o deixar a firma logo que o pudesse fazer sem escândalo. Nesse dia, Godofredo foi mais cedo ao escritório, e fez uma coisa hábil: disse ao guarda-livros, diante do caixeiro, que houvera entre ele e o sr. Machado certas desinteligências, e que as suas relações tinham sofrido modificações.. Estas palavras vagas tinham pôr fim evitar a surpresa, os comentários do guarda-livros, quando os visse agora, defronte um do outro, secos, corteses, e tratando-se pôr senhor Alves e senhor Machado. O guarda-livros murmurou que sentia muito; e dali a instantes Machado apareceu. Foi um momento desagradável. Durante todo o resto do dia mal puderam dar atenção ao que faziam: e o menor movimento do Machado, o puxar do lenço, um passo ao soalho despertavam em Godofredo toda a sorte de lembranças desagradáveis. Uma ou duas vezes atravessou-o um desejo violento de o vituperar, acusá-lo de todas as tristezas que agora enchiam a sua vida: mas conteve-se, apenas se vendo impotente para engolir um ou outro suspiro.

A atitude do Machado foi respeitosa e triste. E quase não trocaram uma palavra. O quer que fosse de angustioso pesava no ar. E o estúpido do caixeiro tornava todo este embaraço mais saliente, teimando em andar em bicos de pés, como numa casa onde há um morimbundo.

Outros dias iguais repetiram-se; mas pouco a pouco a presença do Machado deixou de impressionar Godofredo. Já o podia ver sem pensar no sofá. Estabeleceuse uma rotina. O que entrava pôr último dava os bons-dias polidos ao outro – e depois só falavam em assuntos de negócio; quando não havia que fazer, o Machado saía, abandonando o gabinete a Godofredo, que ficava lendo os jornais no sofá. E isto continuou regular, sem atritos, porque Machado não tinha senão, no fundo, estima pelo bom Alves, e Alves, a seu pesar, conservava um fundo de simpatia pôr aquele rapaz que quase educara. Debalde se dizia a si mesmo que fora do negócio era um traste: o simples tom da sua voz, os seus bonitos modos atraíam-no a seu pesar.

Assim foi que, quando vieram os primeiros dias de outubro, toda aquela tumultuosa agitação que se fizera na vida de Godofredo, e que o trouxera semanas como sonâmbulo, se calmou. Ludovina estava na Ericeira com o pai: e a lembrança daquele momento em que a vira no sofá amarela, que ao princípio fora no coração do pobre Godofredo como uma chaga viva que o menor movimento, o menor atrito, irritava – era como uma ferida ainda, mas cicatrizada, causando apenas uma dessas surdas e vagas dores a que o corpo se habitua. O choque desagradável do encontro com o Machado passara também; no escritório da rua dos Douradores estabelecerase agora uma rotina de relações frias, corteses, toleráveis. E agora, mais calmo, Godofredo podia reparar mais, sentir mais todos os detalhes daquela vida de viúvo, que devia ser agora a sua para sempre – e só descobria desconforto e tristeza. Ao princípio pensara em deixar a casa da rua de São Bento, ir viver para o hotel; mas depois receou a opinião, a maledicência. Ninguém sabia que ele estava separado de sua mulher. Supunha-se que ela estava a banhos, com o pai, e que Godofredo a ia ver de vez em quando. E ele tinha pôr todos os meios de manter esta ficção. Além disso, que havia de fazer às duas criadas? Porque persistia na idéia de manter o silêncio em torno da sua desgraça, conservando sob chave, ligadas a ele pelo interesse duma boa situação, aquelas duas criaturas que a conheciam. Ficara pois em São Bento, e a sua existência, ali, era desgraçada. Um a um os confortos que ele tanto amava tinham desaparecido – porque as duas mulheres, sem ama que as vigiasse, tendo percebido que o senhor as não despediria, dependia da língua delas, estavam inteiramente relaxadas. A tortura do dia começava para Godofredo às nove horas. Era toda uma tortura para que lhe trouxessem água para a barba: nunca havia água quente; a cozinheira, que se levantava agora tarde, não tinha o lume aceso às dez horas. Depois era outra luta para obter o almoço, e quando vinha, feito à pressa, sem cuidado, sem vaidade, quase o enjoava. Desde agosto que todas as manhãs lhe apareciam os mesmos ovos quentes – ora crus, ora cozidos de todo – e os mesmos bifes córneos, negros, como duas liras de couro tisnado. Ele sentava-se, olhava com horror para o guardanapo sujo. Ai, onde estava o tempo em que Ludovina ela própria lhe is fazer o seus ovos quentes, pelo relógio de areia? Então havia sempre flores na mesa, e o seu Diário de Notícias e o seu Jornal do Comércio estavam ao lado do prato, ele desdobrava-os, sentindo em redor o rumor das saias dela, o calor da sua presença, o vago aroma de vinagre de toilette.

(continua...)

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