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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Eram de uso, então, os piqueniques no Jardim Botânico. Em se aproximando o calor, o grande parque enchia-se, aos domingos, de uma população ruidosa e promíscua, de milhares de pessoas de ambos os sexos, largamente espalhadas, indo e vindo, nos seus trajos fofos, ao som de uma banda de música oculta pitorescamente sob as árvores; e os tons claros das toilettes, o colorido gárrulo dos vestuários matizavam a frescura sombria dos caramanchões, de mistura com o vermelho sangüíneo dos flamboyants. Risadas estalavam num cascatear argentino que se ia perder nos longes da mata, ecoando em ondas sonoras de uma cristalinidade musical. No centro da comprida aléia de palmeiras que vai desde a entrada até o fundo da quinta, um repuxo esguichava perenemente, caindo em leque numa grande bacia de pedra, rodeada de mirtos silvestres. Crianças apostavam corridas e juntavam ao som da música a alegria de suas vozes. Em toda a parte a mesma liberdade comunicativa, a mesma expansão domingueira. Desde as cinco horas da manhã até as sete da noite, o Jardim Botânico era como uma grande sala de hotel. Almoçava-se, lanchava-se, jantava-se ao ar livre, sob os castanheiros, na relva fresca e cheirosa, à beira dos lagos.

Ao primeiro domingo de abril realizou-se o sonhado piquenique. A manhã estava radiosa, de uma inefável limpidez, o contorno das montanhas muito vivo, sem borrões de nuvens, recortando em ziguezague o azul infinito e puro do céu - manhã deliciosa como uma recordação do passado ou como uma tela impressionista em que vibrasse a alma das coisas numa estranha sinfonia bucólica de poema virgiliano... manhã como essas de que falava a esposa do secretário - boa para a gente se divertir, para a gente esquecer um pouco as misérias da vida, longe da Rua do Ouvidor e das mexeriqueiras do bairro... Valia a pena, decerto, aproveitar uma manhã como aquela, indo entre as árvores, no seio bom da natureza, bebendo a água das fontes, a ouvir o misterioso segredar dos pássaros e o trilar dos insetos invisíveis - na Tijuca, no Jardim Botânico, em Petrópolis, em Friburgo, em Santa Teresa..., onde quer que houvesse frescura e um pouco d'água límpida.

Todos acordaram cedo, a começar por D. Branca e a acabar por Evaristo, que, à última hora, não se sentia em condições muito favoráveis a uma jornada no campo; mas, enfim, sempre se resolveu, depois de tomar uma dose de conhaque com açúcar.

A mulher de Furtado, sobretudo, não ocultava o bom humor que lhe ia na natureza. Era doida por piqueniques, ninguém lhe falasse em piqueniques! Ergueuse às quatro horas, mesmo porque não dormira bem com o calor, e foi à janela da frente ver como amanhecera o dia, "se o Corcovado tinha nuvens"... Qual nuvens! O perfil da montanha estava limpo na meia sombra do alvorecer. Qual nuvens! Daí a pouco o solzinho estava fora e ela em caminho para o Jardim Botânico, mais o Furtado e a Adelaide e o Evaristo e o visconde, o simpático visconde, o homem que ela tanto admirava e que em toda a parte era o mesmo - elegante, correto, generoso como um nababo, fidalgo até no abotoar a luva a uma dama... Oh, o visconde de Santa Quitéria! Como ela se ia divertir, naquele passeio ao ar livre, como ela ia gozar! A última cartinha dele...

— Que horas são?

Era a voz do secretário, inda na cama, na frescura matinal dos lençóis. D.

Branca teve um pequeno susto, um ligeiro sobressalto.

"Que horas eram? Quatro e meia..."

Ele, então, bocejou, espreguiçou-se molemente, coçando-se e tornou a perguntar:

— Quatro e meia?

— Deu agora... Não faças barulho para não acordar a Julinha.

— Vamos tratando de nos vestir. — Vamos. Não tarda clarear.

E começaram as abluções, os preparativos.

No segundo andar o som abafado de um despertador elétrico fez sinal retinindo embaixo, nos aposentos do secretário. Ele e a mulher trocaram algumas palavras. Tinham combinado com o visconde para as seis horas e o visconde prometera pão faltar. — Às seis em ponto estaria na casa do amigo Furtado.

Foi pontual o Santa Quitéria — questão de mais um minuto, menos um minuto. Vinha chique e alegre, sorrindo ao aproximar-se da casa do secretário, no seu veston de brim, chapéu de palha, binóculo a tiracolo e uma pequena valise cor de chocolate.

As duas senhoras correram à janela e o marido de D. Branca foi recebê-lo à porta da rua.

O visconde apeou nobremente, murmurou qualquer coisa ao boleeiro, e, risonho, apertando a mão a Furtado:

— Creio que estou na hora...

O secretário respondeu com uma exclamação venturosa, estirando o braço para o Corcovado:

— Veja que dia lindo!

— Efetivamente! Está convidativo, está próprio!

E respeitoso, solene, o amável banqueiro perguntou pela "excelentíssima senhora" e pelas crianças.

— Todos bons, muito obrigado. O senhor visconde é que tem mocidade para um século!

— Oh, meu amigo... As aparências iludem... já me vou sentindo cansadinho, graças a Deus.

— Ora, o senhor visconde!

Branca e Adelaide gentilmente o acolheram no alto da escada.

Evaristo completava a toilette no segundo andar

— Que dia lindo, senhor visconde! - fez a esposa do secretário. recuando para deixar passar o Santa Quitéria.

(continua...)

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