Por Adolfo Caminha (1893)
A Campelinho compreendeu que se tratava de assuntos íntimos e rodou nos calcanhares. — Não era nada, era o doido do amanuense que andava aos pontapés.
— Gente canalha! fez o guarda-livros inalterável. Que educação, que fina educação, recebia-se naquela casa!
Logo no dia seguinte à chegada do Zuza — uma segunda-feira luminosa de outubro, muito azul no alto, com irradiações no granito das calçadas e uma aragem insensível quase a arrepiar a fronde espessa dos arvoredos da praça do Patrocínio — Maria do Carmo foi recebida na Escola Normal com um chuveiro imprevisto de — parabéns — que as normalistas lhe davam à guisa de presentes de ano. — Parabéns! Parabéns! repetiam arrastando os pés para trás, abrindo alas, como se cortejassem uma princesa. — Tinham combinado saudá-la pela chegada do Zuza com esse espírito irrequieto de colegial despeitado que se apraz em chacotear outro, e talvez com uma ponta de inveja a mordiscá-las por dentro.
A praça permanecia numa quietação abençoada, com os seus renques de mungubeiras muito sombrias, verde-escuras e eternamente frescas, a desafiar, frente a frente, a pujança outonal dos cajueiros em flor que os liceístas castigavam a pedradas.
Meninos apregoavam numa voz clara e vibrante:
— Loteria do Pará, 30 contos!
O edifício da Escola Normal, a um canto do quadrilátero, pintadinho de fresco, cinzento, com as janelas abertas à claridade forte do dia, tinha o aspecto alegre duma casa de noivos acabada de caiar-se.
Maria estava radiante! Que extraordinária alegria infiltrava-se-lhe na alma, que excelente disposição moral! Acordara mais cedo que nos outros dias, como se tivesse de ir a alguma festa matinal, a algum passeio no campo, espanejando-se toda numa delícia incomensurável, feliz como uma ave que solta o primeiro vôo. Mas ao entrar na Escola desapontou deveras! Seriam onze horas. O diretor ainda não havia chegado. Raparigas de todos os tamanhos, trajando branco, azul e rosa, conversavam animadas de livro na mão, formando grupos, rindo, no vestíbulo que separava a sala de música do gabinete de ciências naturais, no pavimento superior.
Maria entrou vivamente alegre, de braço com a Lídia, dando — bom-dia! — às colegas, uma bonita orquídea no peito, toda de branco, apertada por uma cinta. Mas, a sua delicada susceptibilidade estremeceu ante a insólita manifestação que se lhe fazia, e uns tons de rosa desmaiados, — um ligeiro rubor — coloriram-lhe o moreno-claro das faces. — “Aceitava os parabéns, como não? Muito obrigada, muitíssimo obrigada! Queriam debicá-la? Corujas! Fossem debicar a avó!” Uma gargalhada irrompeu do grupo indiscreto, clamorosa e prolongada.
— Meninas! Fez a Lídia. Isso não são modos!
— Olha a baronesa!
— Como está grande! — Sua incelência...
Maria a custo pôde abafar a raiva que lhe sacudiu os nervos. Sentou-se à varanda que dizia para uns terrenos devolutos do lado de Benfica, mordiscando a pele dos beiços, trombuda, cara fechada, a olhar o arvoredo com um ar afetado de absoluta indiferença.
Continuava o ruído. Havia um jogo contínuo de ditinhos picantes acompanhados de risadinhas sublinhadas — Uma queria um botão de flor de laranjeira, da grinalda, outra desejava apenas um copito de aluá, essa outra contentava-se com um beijo na “noiva”, aquela queria ser madrinha do “primeiro filho”...
Começaram a atirar-lhe bolinhas de papel.
Maria marcava compasso com o pé, furiosa, sem ver nada diante dos olhos.
— Já basta! disse a Lídia abrindo os braços como para afastar as outras.
Tudo tem limite. Vocês estão se excedendo...
— Umas ignorantes! saltou Maria acordando. Umas idiotas que querem levar a gente ao ridículo por uma coisa à toa. Ainda hei de mostrar!...
— O diretor! o diretor! veio avisar a Jacintinha, uma feiosa, d’olho vazado, com sinais de bexiga no rosto, e que estava acabando de decorar alto a lição de geografia.
Foi como se tivesse dito para um bando de crianças traquinas: — Aí vem o tutu!
Houve uma debandada: umas embarafustaram pela sala de música, outras pela de ciências, outras, finalmente, deixaram-se ficar em pé, lendo a meia voz muito sérias. Fez-se um silêncio respeitoso, e daí a pouco surgiu no alto da escada a figura antipática do diretor, um sujeito baixo, espadaúdo, cara larga e cheia com uma pronunciada cavidade na calota do queixo, venta excessivamente grande e chata dilatando a um sestro especial, cabelo grisalho descendo pelas têmporas em costeletas compactas e brancas, olhos miúdos e vivos, testa inteligente...
Maria respirou com alívio.
Mas assim que o diretor deu as costas, entrando para o seu gabinete, recomeçou o zunzum de vozes finas, a princípio baixinho, depois num crescendo.
Maria estava no mesmo lugar, à varanda, quieta e cabisbaixa, olhando o compêndio aberto sobre o regaço.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.