Por Aluísio Azevedo (1880)
Clarão vermelho e sinistro iluminava de um golpe toda a ladeira.
Miguel voltou-se para o lado do fogo, meteu cuidadosamente o pedaço da sua rabeca entre a blusa e a camisa, limpou com a manga uma lágrima que lhe pendia das pestanas e encarou firme as línguas de fogo, que singravam do teto carbonizado da casa de Maffei.
Mas o fogo é na casinha branca! Pensou rapidamente o moço, e tentou correr par o lugar do sinistro.
— E Maffei?! Bradou-lhe a consciência.
Esta observação interior fê-lo parar e cruzar involuntariamente os braços.
— E Rosalina?! interrogou por sua vez o coração; e, antes que a razão interviesse para o dissuadir, deitou a correr, o melhor que pôde, pela ladeira.
Então é que o incêndio principiava a assumir a categoria de uma monstruosidade.
Nas praias batidas, como aquela, por ventos contrários, um incêndio é sempre coisa fácil e decidida no mesmo instante.
A idéia de Rosalina em perigo restituiu ao amante naufragado as forças perdidas até ali, de sorte que em menos de um quarto de hora, correndo como um possesso, tinha ele vencido a ladeira. Com as roupas molhadas de suor, de chuva, de mar e de sangue, atravessou rapidamente a porta do fundo da casa, entrou pelos quartos incendiados, pisou brasas, percorreu com uma sombra todos os cantos acesos, e, suando, vermelho, doido, sublime, cheio de lama, gritando, gesticulando, sem chapéu, sem gravata, com as pestanas tostadas, a carne inchada com o calor, os cabelos queimados e cobertos de cinza, o corpo de faíscas, ora desaparecia entre as chamas, ora tropeçava nas vigas abrasadas, caía, levantava-se e saltava, gritando como uma fúria:
— Rosalina! Rosalina!
E o crepitar do fogo parecia rir-se dos seus apelos.
— Rosalina! Não ouves?! Ó meu Deus! Mãe Angela!
Nada
O isolamento aterrava-o mais que a imponência do incêndio e, sem dar fé que lhe chiavam as carnes assadas e que lhe escorria gordura derretida pelos membros, continuava a gritar:
Rosalina! Rosalina! Estou aqui! Onde estão vocês! Respondam!
— Estariam todos mortos ou em tão pouco tempo teriam partido? — Rosalina! Minha Rosalina?!
E disforme, desesperado, febricitante, horrível, atravessou soluçando a sala; topou com um pente de tartaruga, abaixou-se, apanhou-o, beijou-o e guardou-o no seio em menos de um segundo e a correr saiu pela porta do fundo, como quem acabasse de atravessar o inferno, exclamando furioso:
— Ninguém! Partiram, bradou levantando o braço para o céu ameaçadoramente. No momento, porém, em que apostrofava, sentiu firmarem-selhe no estômago duas patas de cão.
Castor! Gritou o moço caindo de joelhos.
— Oh! disse voltando para o céu os olhos arrependidos. Ainda me resta um amigo!
E abraçou-o soluçando.
CAPÍTULO VIII
— A caminho, meu amigo, disse Miguel a Castor. E puseram-se a andar com vontade pela estrada que ia dar ao povoado.
Castor ia na frente, sacudindo satisfeito a cauda, pelo compasso do andar cadenciado e ligeiro do cão quando leva destino; o artista atrás, triste, vergado, coberto de lama, sangrento, tiritando, mais se arrastava do que andava. Apesar do frio da madrugada que para o nascente alvorecia o horizonte, Miguel tinha a tomarlhe a cabeça febre abrasadora; seguia com o peso aterrador de quem acabava de assistir nesse instante à transformação de sua ventura em um montão de ruínas.
Que poderia esperar mais, além das neves do isolamento? Rosalina desaparecera, isto é, fecharam-se todas as portas, janelas e postigos de sua alma por onde podia entrar a luz. E que seria das flores dessa pobre estufa, dessas flores tão cuidadosamente tratados por ele entre os abrolhos de uma vida de necessidades e decepções, sem um único raio do sol que até ali as sustentara? Que seria delas com a ausência absoluta de Rosalina?
O amor é para a alegria, a esperança, a honra e a glória o que a luz é para as flores; em outras palavras o amor é o matiz, o perfume, o frescor e a vida de nossos sentimentos.
As flores não podem vingar nas trevas
Assim pensava Miguel quando chegou como companheiro à casa.
O sol tinha-se erguido de todo no levante; fazia um tempo magnífico.
O moço empurrou a porta e Castor precipitou-se no interior do quarto, farejando os pobres trastes e o chão, em seguida, mordendo satisfeito a cauda e as patas, pôs-se a ladrar para a rua.
Desde esse dia, viveram os dois amigos em íntima e completa harmonia nunca se separavam, comiam juntos e dormiam perto um do outro.
Três meses depois do incêndio, Miguel teve notícia de uma família que precisava de um professor de música para quatro crianças; apresentou-se e foi aceito.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.