Por Aluísio Azevedo (1895)
E repetem quase todos eles a mesma cantiga. É difícil encontrar um marido que não tenha na ponta da língua esta frase: ”Eu não me posso queixar, mas não te cases!” sem se lembrarem os ratões de que semelhante conselho já é uma queixa.
Que diabo de felicidade é então essa, que os casados aconselham a todos os seus amigos solteiros que a evitem? Será isso egoísmo na ventura, ou falso vexame de confessar a própria desgraça?
Não, a razão é outra. Quereis saber, contraditórios casados, por que assim falais do casamento? É porque nele sois ao mesmo tempo felizes e infelizes — felizes na vossa amizade; infelizes no vosso amor.
E sois infelizes no vosso amor, simplesmente porque sois desiludidos.
Olhai o casamento entre a gente do campo. Por que razão o camponês é mais feliz no casamento do que a gente civilizada da cidade? É que lá na roça quando o João da Horta vai casar com a Joana dos Porcos já lhe conhece a medida justa da cintura, e já lhe viu os pés descalços, as unhas sujas e a cabeça despenteada; e ela vai sabendo já qual o verdadeiro cheiro que ele tem, e quais são os defeitos e as boas qualidades que o acompanham.
São antes do matrimônio o que são depois — não sofrem decepções! E, como a vida exercitada e simples do campo lhes tem naturalmente conservado melhor a integridade do corpo, e lhes tem poupado calos, enxaquecas, hemorróidas e dispepsias, a infinidade de misérias e inconfessáveis aborrecimentos que sobrevêm fatalmente na coabitação dos casais civilizados, quase que não existe entre eles.
Assim, só entre os simples, ainda se encontram casados que se amam e se desejam fisicamente depois de ter tido vários filhos; por conseguinte só entre eles as crianças, concebidas depois do primeiro parto, seriam sãs, fortes e inteligentes, se nas relações matrimoniais dos camponeses concorresse o indispensável elemento poético da imaginação, do enlevo espiritual, donde tira o filho a última daquelas três qualidades. Só esse elemento lhes falta no amor, e é por isso que o filho do homem do campo é que sempre bem constituído de corpo, mas em geral estúpido, ainda mesmo passando logo a conviver entre gente mais cultivada.
Em toda a ocorrência sexual, a ilusão fascinadora do espírito é indispensável para o perfeito equilíbrio do filho conseqüente.
Concluí pois dos meus raciocínios, não que Palmira precisasse conhecer bem o noivo antes do casamento, ou vice-versa, porque seria isso perigoso debaixo do ponto de vista da ilusão amorosa — ela não era uma camponesa; mas que deviam ambos conservar, eternamente intactas e perfeitas, as boas impressões, que um do outro tivessem porventura recebido no período em que se desejaram pela primeira vez.
A tarefa, como se vê, era mais que penosa, delicada, e de muito difícil execução; eu, porém, estava disposta a todos os sacrifícios por amor de minha filha, e haveria de triunfar! De resto, com que melhor poderia eu encher a vida? A idéia de escrever estas memórias só mais tarde começou a preocupar-me o espírito.
Mas prossigamos. Vamos ver agora como cheguei à realização dos meus ideais.
CAPÍTULO X
Na escolha mental que fiz de um noivo para minha filha, pareceu-me fosse preferível um oficial de marinha em serviço ativo, porquanto o marinheiro leva no casamento duas vantagens sobre os homens de outras profissões. A primeira porque o serviço de bordo ou em alguma fortaleza o obriga a afastar-se periodicamente da esposa, cumprindo ele assim, por dever de ofício, com o higiênico preceito da Bíblia; a segunda porque os perigos da sua vida aventurosa, a honra militar e a estética da farda, lhe dão certo brilho especial de antiburguesismo e um fascinante prestígio de altivez e denodo que muito pesam nos interesses do amor.
Nós mulheres gostamos de ver no homem amado tudo aquilo que não possuímos nem podemos aspirar. Quanto mais varonil e másculo for ele, tanto mais nos impressiona e atrai. A força física, a bravura, a energia de ação, e a singela bondade do homem forte, são os dotes masculinos que mais diretamente seduzem uma mulher bem equilibrada. Eu, que amei tanto meu marido, nunca lhe perdoei todavia, no íntimo do meu julgamento feminil, que ele fosse de compleição pouco mais desenvolvido em músculos do que eu. E não era fraco.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.