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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:

- A mãi, sim! Minha irmã era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraçado casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, já v. exc.ª vê que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazões, são para mim blague e mais blague! Mas emfim os factos são os factos, a historia de Portugal ahi está... Os Guimarães da Bairrada eram de sangue azul.

Ega sorriu, n'um assentimento cortez:

- E v. exc.ª então parte brevemente para Paris?

- Amanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, já se póde lá respirar...

N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braço dado, voltaram-se, a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira

nova; o seu altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos.

- A republica com effeito observou elle, dando alguns passos ao lado do snr. Guimarães, esteve alli um momento compromettida!

- Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser expulso por causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunião anarchista. Até me affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de MacMahon, que é um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: Ce sacré Guimaran, il nous embête, faut lui donner du pied dans le derrière! Eu não estava lá, não sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes não sabem pronunciar Guimarães, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno Mr.Guimaran. Ha dois annos, quando fui á Italia, era Mr. Guimarini. E se fôr agora á Russia, cá por coisas, hei de ser Mr. Guimaroff...Embirro que me estropiem o nome!

Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas vazias punham dentro, no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado o Prata continuava, de mão no bolso, com o nariz sobre o manuscripto, sem que se sentisse agora surdir um som

d'aquelle espantalho esguio. Mas o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sêda, disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da póda, e lá tinha ficado ás voltas com Proudhon.

Ega e o democrata recomeçaram então os seus passos lentos na ante-sala onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um palco, entre fumaças furtivas de cigarro. E o snr. Guimarães chasqueava, achando uma boa bêtise que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a proposito d'estrumes do Minho...

- Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito, é já um monstro classico. Até os conselheiros d'Estado já sabem que para elle a propriedade era um roubo, e Deus era o mal...

O democrata encolheu os hombros:

- Grande homem, senhor! Homem immenso! São os tres grandes pimpões d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!

- O compadre! exclamou Ega, attonito.

Era o nome d'amizade que o snr. Guimarães dava em Paris a Gambetta. Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de longe, em hespanhol: «Hombre, compadre!» E elle tambem, logo: «Compadre, caramba!» D'ahi ficára a alcunha, e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo d'esta franqueza do sul, e patriota, até alli!

- Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!

Pois Ega imaginaria que o snr. Guimarães, com as suas relações do Rappel, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...

- Esse, meu caro senhor, não é um homem, é um mundo!

E o snr. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:

- É um mundo!... E aqui onde me vê, ainda não ha tres mezes que elle me disse uma coisa que me foi direita ao coração!

Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:

- Foi uma noite no Rappel. Eu estava a escrever, elle appareceu, já um pouco trôpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto é, não! que se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque.

Levantei-me como se elle fosse um Deus! Qual Deus! não ha Deus que me fizesse levantar!... Emfim, acabouse, levantei-me! Elle olhou para mim, fez assim um gesto com a mão, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que tinha sempre: Bonsoir, mon ami!

E o snr. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio, como se aquelle bonsoir, aquelle mon ami, assim recordados, lhe fizessem mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.

(continua...)

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