Por Eça de Queirós (1888)
- V. exc.ª afllige-me com esse desdem pelos grandes mestres... Não quer que a vá acompanhar á carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.ª D. Joanna!... Um servo seu, snr.ª baroneza! E Deus lhe tire a sua dôr de cabeça!
Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente com o leque:
- Não seja impostor! O snr. Ega não acredita em Deus.
- Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dôr de cabeça, snr.ª baroneza!
O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo que lhe fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca - o Cruges, com o nariz bicudo contra o caderno da Sonata, martellando
sabiamente o teclado. Foi então subindo em pontas de pés pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, cançadas, bocejavam por traz dos leques.
Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um rancho intimo, a marquesa de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque. E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber quem era aquelle musico de cabelleira.
- Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam. E era composiçao d'elle, aquella coisa triste?
- É de Beethoven, snr.ª D. Maria da Cunha, a Sonata pathetica.
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de Soutal, muito séria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de saes, disse que era a Sonata pateta. Por toda a bancada foi um rastilho de risos suffocados. A Sonata pateta! Aquillo
parecia divino! Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, imberbe e côr de papoula:
- Muito bem, snr.ª marqueza, muito catita!
E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam á marqueza, entre o frou-frou dos leques. Ella triumphava, bella e séria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os saes - emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cólera.
No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a Tarde. E cahido sobre o teclado, oom a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre Cruges, suando, estonteado por aquella desattenção rumorosa, atabalhoava as notas, n'uma debandada.
- Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximára do Ega e do rancho.
Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até que emfim se via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante esse verão? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com anciedade... Um chut furioso do amador de
barbas grisalhas emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos, arredára o môcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mãos ao lenço. Aqui e além algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um grande murmurio d'allivio.
E o Ega e Carlos correram á porta, onde já esperavam o marquez, o Craft, o Taveira - para abraçar, consolar o pobre Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
E immediatamente, no silencio atento que redominava, um sujeito muito magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mão. Alguem ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o Estado agricola da provincia do Minho. Atraz, um criado veio collocar sobre a mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz, mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena, onde por vezes destacavam como gemidos - «riqueza dos gados..., esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida região...»
Começou então uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os chuts do commissario do sarau, vigilante e de pé sobre um degrau do estrado, podiam conter. Só as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mão em concha sobre a orelha.
Ega, que fugia tambem «ao vecejante paraiso do Minho», achou-se em frente do snr. Guimarães.
- Que massada, hein?
O democrata concordou que aquelle preopinante não lhe parecia divertido... Depois, mais sério, com outra idéa, segurando um botão da casaca do Ega:
- Eu espero que v. exc.ª ha pouco não ficasse com a impressão de que eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho...
Oh! decerto que não! Ega vira bem que o snr. Guimarães não tinha pelo Damaso nenhum enthusiasmo de familia.
- Asco, senhor, só asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil dá-se ares d'aristocrata... E como v. exc.ª sabe, é filho d'um agiota!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.