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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

É verdade que o nosso herói era valente e coraçudo, tinha muito pundonor e era dotado de nobres e altivos sentimentos; mas o certo é que só nos primeiros dias pensou em vingança. As palavras de sua mãe tinham deixado profunda impressão em seu espírito, e talvez também que algum sentimento íntimo ainda muito em gérmen e adormecido nas dobras do coração, contribuísse para acalmar o seu justo ressentimento.

Doeu-lhe cruelmente a desfeita de que fora vítima, e não pôde por muitos dias disfarçar o despeito e rancor, de que se achava possuído. Mas uma imagem sedutora começava a aparecer a miúdo em seu espírito, e com seu aspecto angélico e sereno dissipava-lhe os negrumes e tormentos do coração. Era como uma fada branca e vaporosa, que vinha varrendo a bruma espessa dos horizontes, e fazia coar uma réstia de luz meiga no fundo daquela alma ulcerada. Era a imagem suave e melancólica de Paulina, que surgia por detrás da sombra de Lucinda, que se esvaecia; era o tipo nobre e delicado da filha do fazendeiro, que apagava na tela da imaginação as formas voluptuosas da rósea e faceira paulista.

Paulina, ainda que Eduardo disso não tivesse consciência, tinha-lhe ficado para sempre gravada no coração em profundos e indeléveis caracteres. Não havia nele ainda uma paixão, porque havia um obstáculo, outra paixão; o coração humano não pode conter a um tempo duas paixões; na tela, onde existe um retrato, não se pode estampar outro sem apagar o primeiro.

Não havia ainda paixão, mas existia o gérmen dela, gérmen que só esperava a ocasião e o terreno livre para desenvolver-se com todo o viço e energia. Assim acontece por vezes, que debaixo do chão ocupado por uma planta robusta existe oculta a semente de outra planta. Se o ardor do sol ou a geada cresta, e faz definhar a primeira, esta cresce e rebenta com tal viço e força, que sufoca e mata a primeira, e toma como conta do terreno.

Eduardo confrontara no espírito as graças tão naturais, o porte modesto, e o sorriso tão meigo de Paulina com os ademanes faceiros e pretensiosos e a garridice de Lucinda, a cândida inocência de uma com a maliciosa vivacidade de outra, e compreendia que, se tivesse tido a dita de tê-las visto ambas a um tempo com o coração livre e espírito desprevenido, nem um momento teria hesitado na escolha. Lucinda com seu gentil donaire um pouco desenvolto, seu rosto sempre corado e risonho, com o voluptuoso meneio das esbeltas e bem torneadas formas fascinava os olhos, abrasava a imaginação, e era capaz de fazer arder em febre de sensualismo o mais estóico e frio temperamento. Paulina com a suave e angélica figura inspirava respeito, amor e adoração, insinuava-se no coração como um meigo raio da lua no seio de um lago dormente, e aí ficava para sempre estampada.

As qualidades de Lucinda, Eduardo as pesava e exagerava no espírito a ponto de convertê-las em abomináveis defeitos, enquanto Paulina lhe aparecia rodeada de uma auréola cada vez mais prestigiosa de candura e beleza. Seu pensamento volvia-se de contínuo com a mais viva saudade para a fazenda de Joaquim Ribeiro, recordava traço por traço as feições de Paulina, seus gestos, suas palavras, e admirava-se de ver como tudo lhe ficara tão intimamente gravado na memória; eram como caracteres apagados, que um reativo faz subitamente reaparecer vivos e distintos.

Lucinda era duplamente culpada para com Eduardo. Com sua deslealdade lhe havia trancado por dois lados os caminhos da felicidade e do amor. Mas não era a perda de Lucinda, que ele agora lastimava; antes o amor, que lhe havia consagrado, se ia convertendo em desprezo e aversão; era sim a perda de um tesouro, que a seus olhos valia mil vezes mais do que ela, de uma formosa e adorável criatura, que o amava sincera e ardentemente, e a cujo amor por causa de Lucinda havia renunciado para sempre. Maldita a hora em que preferira o fatal juramento, que fizera ao primo de Paulina! maldito o estouvado e bronco pretendente, que veio estorvar-lhe o caminho da felicidade, que o céu como que de propósito tinha preparado diante de seus passos todo alastrado das rosas da esperança e do amor! mais maldita ainda a estulta constância e lealdade que guardara para com uma loureira caprichosa, que tão levianamente o esquecera! Um anjo como que lhe caíra dos céus, e se lhe entregava nos braços, e ele o repelira de seu seio por amor de uma mulher vulgar, de uma filha da terra sem fé e sem pudor!

Estas reflexões noite e dia amarguravam a alma de Eduardo, e quanto mais crescia a admiração e o amor, que concebera por Paulina, mais pungente era a angústia, que lhe ralava o coração. O mal era sem remédio; Eduardo, além de ser naturalmente dotado de instintos de lealdade e honradez a toda a prova, era paulista, firme e tenaz em seu propósito, incapaz de faltar à sua palavra e levando até ao fanatismo a religião do juramento. Ora, Eduardo tinha dado a sua palavra de honra a Roberto, tinha-lhe mesmo jurado pelas cinzas de seu pai, que nunca serviria de estorvo ao seu enlace com Paulina.

(continua...)

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