Por José de Alencar (1857)
PEDRO - Precisa mesmo, para não andar enchendo a boca de que comprou filha de senhor com seu dinheiro dele.
VASCONCELOS - Comprou minha filha! Ah, miserável! (Batem palmas.)
PEDRO - Pode entrar.
CENA X
Os mesmos e ALFREDO
PEDRO (a ALFREDO) - V.Mce. espere, vou chamar Sr. moço Eduardo.
ALFREDO - Sim, dize-lhe que desejo falar-lhe com instância.
VASCONCELOS (a PEDRO) - Há muito tempo que ele saiu?
PEDRO - Sr. Azevedo?... Agora mesmo.
VASCONCELOS - Vou à sua procura. Preciso de uma explicação.
CENA XI
PEDRO, ALFREDO
PEDRO - O velho vai deitando azeite às canadas! Noivo da filha virou de rumo e agora só quer casar com nhanhã Carlotinha.
ALFREDO - Oh! Ele pode desejar todas as mulheres, é rico!
PEDRO - Não sei também; essas moças... têm cabecinha de vento; um dia gostam de um, outro dia gostam de outro. Nhanhã, que esperava todo o dia para ver Sr. Alfredo passar, nem se lembra mais; escreveu aquela carta a Sr. Azevedo!
ALFREDO - Se não fosse essa carta, eu ainda duvidava!...
PEDRO - V.Mce. bem viu, no domingo, ela me dar à sua vista, e eu entregar na rua a ele, a Sr. Azevedo.
ALFREDO - Sim; e foi preciso ver seu nome escrito!... Quem diria que tanta inocência e tanta timidez eram o disfarce de uma alma pervertida! Meu Deus! Onde se encontrará nestes tempos a inocência, se no seio de uma família honesta ela murcha e não vinga!
PEDRO - Ora, Sr. Alfredo, tem tanta moça bonita! Pode escolher!
ALFREDO - Vai prevenir a Eduardo!
CENA XII
Os mesmos, CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA - Ah! Ele está aí!...
HENRIQUETA - Não te disse? Já volto.
CARLOTINHA - Queres deixar-me só com ele! Não, eu te peço.
PEDRO (a ALFREDO) - Nhanhã! Como ela está alegre!
ALFREDO - É por ele! (Cumprimenta.)
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Nem me fala! Que ar sério!
HENRIQUETA - É, talvez, por minha causa.
CARLOTINHA - Não, fica.
PEDRO (a CARLOTINHA) - Agora é que nhanhã deve ensiná-lo; e não fazer caso dele! (Sai.)
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Nem me olha!
HENRIQUETA - Com efeito, ele tem alguma coisa que o mortifica.
CARLOTINHA - Se eu lhe falasse!...
HENRIQUETA - É verdade, dize-lhe uma palavra.
CARLOTINHA - Oh! Não tenho ânimo!
HENRIQUETA (a CARLOTINHA) - Espera, com ele eu sou mais animosa do que tu. Vou falarlhe.
CARLOTINHA - Mas não lhe digas nada a meu respeito.
HENRIQUETA - Não. Então, Sr. Alfredo, tem ido estas noites ao teatro?
ALFREDO - É verdade, minha senhora, para distrair-me.
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Distrair-se... De pensar em mim!
HENRIQUETA - O teatro é mais divertido do que as nossas noites, aqui em casa de Carlotinha ou na minha. Não é verdade?
ALFREDO - Não, minha senhora, mas no teatro se está no meio de indiferentes, e, portanto, não há receio de que se incomode com a sua presença àquelas pessoas que se estima.
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Com que ar diz ele isto! Tu compreendes?
HENRIQUETA - Mas, Sr. Alfredo, me parece que isto não se refere a nós, que nunca demos demonstrações...
ALFREDO - A senhora, não, D. Henriqueta.
CARLOTINHA - É a mim, então... (Silêncio de ALFREDO.)
HENRIQUETA - Mas explique-se, Sr. Alfredo; eu creio que há nisto algum equívoco.
ALFREDO - Há certas coisas que se sentem, D. Henriqueta, mas que não se dizem. Quando nos habituamos a venerar um objeto por muito tempo podemos odiá-lo um dia, porém o respeitamos sempre!
CARLOTINHA - Mas ninguém tem direito de condenar sem ouvir aqueles a quem acusa.
HENRIQUETA - Decerto; muitas vezes uma palavra mal interpretada...
EDUARDO - Tem certeza disso?
ALFREDO - Tenho convicção profunda.
EDUARDO - Pode ser uma convicção falsa.
ALFREDO - Não me obrigue a apresentar-lhe as provas.
EDUARDO - São essas provas que eu peço! Tenho direito a elas...
ALFREDO - Por quê? Não ofendem o caráter de D. Carlotinha.
EDUARDO - Mas revelam seus sentimentos, que eu devo conhecer como seu irmão.
CENA XIV
Os mesmos, CARLOTINHA, HENRIQUETA
CARLOTINHA - E que eu exijo que se patenteiem, porque não me envergonham, Eduardo!
EDUARDO - Tu nos ouvias, Carlotinha!
CARLOTINHA - Sim, mano. Tratava-se de mim; fiz mal?
EDUARDO - Não, minha irmã, eu mesmo te chamaria se não quisesse poupar-te um pequeno desgosto. Mas já que aqui estás, fica. Alfredo parece que tem algumas queixas de nós; julgarás se ele é injusto.
HENRIQUETA (à meia voz, a EDUARDO) - Ele está iludido! Carlotinha o ama!
EDUARDO - Eu sabia! (Continuam a conversar.)
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.