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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

É quando eu sinto, quando sei melhor sentir, é à noite; sobretudo nas noites escuras, como esta, em que só há, estrelas! O sol me alegra, como a grande claridade das salas, e me anima. Eu creio que as horas, em que sou mais bonita, é ao meio-dia no campo e à, meia-noite no baile! Não sabe por quê? Tenho bebido muita luz; a luz é um alimento para mim. Mas a hora em que sou mais bonita, não é a hora em que me sinto melhor, acredite! Na sombra sim, conheço que meu coração é bom. Pareço-me com as flores. De dia as cores mais vivas; de noite o perfume mais suave! Eu escutava Emília, enlevado como sempre que, em nossas conversas íntimas, ela fazia cintilar a graça de seu espirito volúbil. E se vinham de envolta alguns raios dessa fragrância, que ela chamava perfumes de sua alma, eu os recolhia santamente no coração. 

Enquanto ela falava, eu reprimia a respiração para não perturbar a melodia de suas palavras. Se me perguntava alguma cousa, tinha medo de responder-lhe; parecia que minha voz ia dissipar o meu êxtase. —As melhores horas da minha vida, vivo-as de noite. É quando Deus me visita. Ele desce nos raios das estrelas, e entra em minha alma, aberta para recebê-lo. Tenho-o sentido aqui dentro tantas vezes!... Veiome agora um capricho!... Olhe!... Quando essas luzes se apagarem, e todos recolherem, quero gozar desta bela noite... 

Mas há de ser lá, à sombra daquelas jaqueiras, à beira do lago. 

As jaqueiras de que falava Emília ficavam muito distantes da casa. Insensivelmente movi a cabeça com um gesto de dúvida. 

—O senhor não acredita?... Pois vá até lá. 

—Consente!... 

Seu olhar casto pousou em mim, como uma linda criança conchegando-se no regaço materno. —A uma hora. Eu o espero. 

Que estranha e bizarra criatura, Paulo! Com que desdém, ela, frágil menina de dezessete anos, pura como um anjo, calcava aos pés todas as considerações sociais, todos os prejuízos do mundo! Ela dava-me a maior prova de confiança, e o fazia singela e natural, apenas com uma dignidade meiga de rainha compassiva. Arriscava por mim sua reputação, e nem o mais leve receio-lhe perpassava na fronte serena. 

Enfim, Emília dava-me esta entrevista, alta noite, em um ermo, como me convidara para o passeio a Santa Teresa, como me dera a primeira contradança que dançamos, como me daria uma flor, um sorriso, um olhar. 

E tinha razão. 

Não estava ela em qualquer lugar mais protegida pelo seu pudor celeste, do que tantas mulheres desvalidas dele no meio de um salão?

XII

ERA uma hora da noite. 

Eu esperava Emília com os olhos fitos na janela de seu quarto, as únicas em toda a casa que ainda apareciam frouxamente esclarecidas. 

Já te disse que os aposentos de Emília, uma alcova, um gabinete de vestir e uma sala de trabalho, ocupavam a face esquerda do edifício. Desse lado o sobrado apoiava-se a uma escarpa da colina, que lhe servira como de alicerce, e que para elegância da construção o arquiteto disfarçara com um terraço. O gabinete de Emília abria uma porta para esse terraço. Ali no quadro iluminado pela claridade interior, via eu de longe desenhar-se seu vulto esbelto. Avançou até a borda do rochedo escarpado. 

—Que vai ela fazer, meu Deus! balbuciei trêmulo e frio de susto. 

Esquecendo tudo, para só lembrar-me do risco imenso qu sua vida corria, fui para soltar um grito de pavor que a suspendesse; mas ela, resvalando pelas pontas erriçadas do rochedo abrupto, já tocava a planície. Pouco depois estava junto de mim, calma, risonha, sem a menor fadiga. 

Aqui estou! disse afoitamente, abaixando o capuz da longa mantilha. 

—Para que arrisca assim a sua vida, D. Emília? Se eu soubesse... não tinha aceitado! Ela ergueu os ombros desdenhosamente. 

—Ainda estou frio!... Parecia-me a cada momento que o pé lhe faltava e... 

—E eu morria!... Se não fosse isso teria eu vindo? Podíamos ficar onde estávamos, tranquilamente sentados no sofá,... Para que serviria a vida, se ela fosse uma cadeia? Viver é gastar, esperdiçar a sua existência, como uma riqueza que Deus dá para ser prodigalizada. Os que só cuidam de preservá-la dos perigos, esses são os piores avarentos! —E quem se priva a si do mais belo sentimento, quem se esquiva de amar, não é avaro também da vida, avaro do seu coração e das riquezas de sua alma? A senhora o é, D. Emília! Oh! Não negue! —Como ele se engana, meu Deus! exclamou Emília erguendo ao céu os belos olhos. 

—Que diz?... Então posso acreditar enfim? E murmurei arquejante: 

—É verdade que me ama? Nunca até aquele momento, durante dous meses vividos em doce intimidade e no conchego estreito de nossas almas, nunca a palavra amor fora proferida em referência a nós. Emília dava-me, como já sabes, todas as preferências a que podia aspirar o escolhido do seu coração, e assumira para comigo o despotismo da mulher amada com paixão. Ela imperava em mim como soberana absoluta. Seu olhar tiranizava-me, e fazia em minha alma a luz e a treva. 

A fonte de minhas alegrias, como de minhas tristezas, manava de seus lábios. Se eles abriam-se, meu coração abria-se também, em flor ou chaga, conforme o sorriso era orvalho ou espinho. 

(continua...)

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