Por José de Alencar (1870)
Ao retirar-se, Horácio achou ensejo de trocar uma palavra com a moça, enquanto lhe apertava a mão:
— Não seja cruel!
— Oh! cruel não sou eu, replicou a moça com expressão de ressentimento.
Mais tarde, em sua alcova, enquanto desfazia o penteado, soltando os lindos anéis do cabelo castanho, Amélia recordou-se das palavras apaixonadas que ouvira de Leopoldo na véspera, e comparou-as com as queixas de Horácio. A linguagem do primeiro tinha a eloqüência da paixão; parecia vir do íntimo, do mais profundo do coração. A linguagem do segundo tinha a graça da sedução: era a vibração passageira das cordas d'alma.
Mas a palavra do leão vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado por um bigode fino e elegante!
Durante uma semana, Amélia não viu Horácio, por uma razão muito simples. O moço, de arrufado, não apareceu durante dois dias; quando se resolveu a aparecer, a moça despeitada inventou um incômodo, e não desceu à sala de visita, pelo dobro do tempo. Se Horácio sustentasse a luta, podia haver sério rompimento.
O leão porém estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia foi humildemente render preito e homenagem à suserana de seu coração. Amélia o recebeu como rainha magnânima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horácio pôde beijar-lhe a ponta dos dedos.
Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande questão. Fitando o olhar no rosto da moça e abaixando-o à orla do vestido, disse em tom suplicante:
— Me deixa ver?
— Não, respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se:
— Quando cessará este capricho?
— Nunca.
Horácio teve um assomo de impaciência.
— Bem. Não me quer mostrar a mim, Horácio de Almeida; pois há de mostrálo a uma pessoa.
— A quem? perguntou a moça irritada.
— A seu marido.
Amélia tornou-se pálida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; mas recobrou-se logo à idéia de que as palavras de Horácio não passavam de um galanteio.
— Se algum dia me casar, replicou ela sorrindo, há de ser com a condição de não mostrar.
— Havemos de discutir essa condição.
—Vamos mudar de conversa?
— Como quiser; temos muito tempo para continuá-la.
Enquanto Amélia o olhava surpresa, Horácio voltando-se para o grupo das senhoras, tomou parte na conversação geral.
— Já sabem a novidade, minhas senhoras?
— Qual delas? Há tantas.
— A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em primeira mão, de caminho para aqui.
— Algum casamento, aposto.
— E eu sei de quem.
— Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; quem sabe? respondeu Horácio, relanceando um olhar para Amélia. Mas a novidade de hoje, é apenas um baile, um baile, um baile de estrondo.
— Aonde?
— No Cassino?
— No clube?
— Em casa de Azevedo.
— É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!
— Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso à realização vai uma grande distância. Eu desejo muita coisa que não alcanço, e nem ao menos posso ver. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande questão, por ocasião de uma saúde. Um amigo que vinha de lá, encontrando-me a dois passos daqui, me deu a notícia do grande acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!
— Quando é o dia?
— No primeiro do mês próximo. Ponham desde já em contribuição as lojas e modistas; eu, o que posso, é oferecer-me com muito gosto para admirá-las a todas, e achar a cada uma de per si mais elegante do que as outras juntas. Se Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de Tróia.
— Nem Homero por conseguinte, replicou um literato.
— Homeros sempre os há. Quando não encontram os heróis já feitos, inventam-nos, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O mesmo sucede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não acham ninfas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de cabide para pendurarem a lira.
Amélia ficara triste e preocupada; escutava a palavra volúvel do moço com um sentimento indefinível de angústia; parecia-lhe que era seu amor por ela, que Horácio rasgava aos pedacinhos, como uma página querida, abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquela conversa.
Uma amiga reparando na tristeza da filha de Sales e no olhar que em certa ocasião lhe deitara Horácio, disse ao ouvido da moça sentada a seu lado:
— Amélia ficou lograda!
— Como?
— Creio que Horácio está justo com outra.
— Quem lhe disse?
— A tristeza de Amélia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando falava de um casamento que se há de saber amanhã.
— É verdade. Com quem será?
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.