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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Henrique — A idéia do impossível é quase um sacrilégio: a esperança somente apaga na alma do ateu.

Leonina — Mas quando o próprio dever e o mesmo Deus ordenam o sacrifício de uma vida inteira...quando para salvar seus pais o único recurso que tem uma pobre filha é aceitar a mão de um homem que detesta...quando...

Henrique — Não diga mais...eu sei...eu adivinho tudo...o rubor de suas faces revela o que lhe parece um segredo, e o que ninguém ignora...Leonina...vão condená-la a uma desventura eterna...e eu lhe oferecia no meu coração um altar de amor...Leonina!...

Leonina — E para sentar-me nesse altar, Henrique, já que o sabe, lembre que eu precisaria fazer um degrau da honra de meus pais!...um homem se apresenta para salvá-los...atiro-me nos seus braços...não! não! Eu abraço-me somente com a salvação de meus pais!...

Henrique — Tem razão, é assim mesmo. O santo amor de filha que lhe aconselha tanta abnegação, a engrandece ainda a meus olhos. Tem razão; procede, como deve. Oh! vã filosofia que zombas do poder do ouro! reconhece um tal poder e curva-te diante dele!...ei-lo!...aqui está o ouro comprando uma mulher, e uma mulher vendendo-se nobremente ao ouro por amor da virtude!

Leonina — Meu primo!...

Henrique — Miserável orgulho de artista!...artista!...de que te vale essa palheta, que amas com um cetro, essa glória, com que sonhas incessantemente? De que te vale o gênio, artista?...Oh!...quem me dá um cofre de ouro por essa palheta, que me custou tantos anos de fadiga? Quem me dás um cofre de ouro pela glória de meus sonhos, pelo talento que me inflama?...Oh! vãs quimeras!...a glória é uma ilusão! O talento é nada! O gênio é a túnica de Nesso, o merecimento, a probidade, a sabedoria são mentiras: há só uma grande verdade, é o ouro!

CENA X

Leonina, Henrique e Anastácio.

Anastácio — Blasfêmias!... há só uma grande verdade, é Deus; e por Deus são verdades o gênio, o merecimento, a probidade e a sabedoria. Leonina — Meu tio!

Henrique — Salve-nos, meu tio! Quem nos reconciliou, quem nos animou com suaves esperanças, deve salvar-nos.

Anastácio — E hei de salvá-los. Não saí de Minas para assistir ao casamento de minha sobrinha com o comendador Pereira.

Leonina — Que hei de fazer...ensine-me?...

Anastácio — Resiste.

Leonina — Mas eu já dei o meu consentimento à minha mãe...

Anastácio — Resiste.

Henrique — Ainda é tempo, vá retirar a sua palavra.

Leonina — É tarde!...ei-los aí...(Anastácio e Henrique põem as máscaras).

Henrique — Lembre-se do nosso amor, minha prima.

Leonina — Oh! e meu pai?...e meu pai?

Anastácio — Resiste. (Vão-se Anastácio e Henrique)

CENA XI

Leonina, Maurício, Hortênsia, Pereira, Fabiana, Frederico, Filipa, Reinaldo e Lúcia.

Reinaldo — Festa sublime e inimitável! Mas foi o diabo; apesar do meu disfarce conheceram-me logo pelo arreganho militar.

Pereira (À parte) — Se eu fosse ministro da guerra havia de reformar este coronel em cabo de esquadra; tenho-lhe um ódio!

Lúcia — Só o senhor Maurício e a Dona Hortênsia sabem dar bailes com tanta riqueza e tão apurado gosto.

Leonina (À parte) — Como meu pai está sofrendo!...o meu pobre pai!...

Hortênsia — O esplendor da nossa festa é todo devido ao brilhante concurso que nos veio honrar...

Pereira — E eu sou o mais ditoso entre todos os que vieram a ela.

Fabiana — Bem o merece, se o é; porém Dona Hortênsia chamou-nos ao jardim com um ar de mistério que me vai dando que pensar.

Hortênsia — Escolhi os nossos mais diletos amigos, para que fossem eles os primeiros a quem eu tivesse o prazer de participar que o senhor comendador Pereira fez-nos a honra de pedir Leonina em casamento, e que esta correspondeu como devia a tão notável distinção, aceitando ufanosa a felicidade que o céu lhe destinou.

Vozes Parabéns! Parabéns!

Pereira — Falta-me só receber a confirmação da minha dita da própria boca da formosa noiva...

Maurício — Um momento...devo dizer ainda uma palavra a Leonina; perdão...é o último conselho de um pai. (Leva Leonina para um lado; Hortênsia toma o outro lado da filha, ficando um pouco para trás). Minha filha, eu corri há pouco para impedir uma promessa fatal, e cheguei tarde; agora, porém, o momento é supremo; o teu sacrifício não impediria o meu infortúnio...

Hortênsia (À Leonina) — O comendador jurou-me que salvaria teu pai, Leonina!

Maurício (À Leonina) — No meio das maiores desgraças, a tua felicidade seria para mim a única e a mais doce consolação...

(continua...)

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