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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

Eu corri com os olhos tudo que em mim havia e só achei para entregar ao admirável homem que me falava um lindo alfinete de camafeu, que meu pai me tinha dado para trazer ao peito: maquinalmente, pus-lhe nas mãos o meu camafeu. O velho quebrou o pé do alfinete e dando-o a sua mãe, acrescentou:

— Minha mãe, cosa dentro do breve branco este camafeu.

E voltando-se para minha bela camarada, continuou:

— Menina! Que trazeis convosco que possais oferecer a este menino?...

A menina, atilada e viva, como já esperando tal pergunta, entregou-lhe um botão de esmeralda que trazia em sua camisinha. O velho o deu a sua mãe, dizendo:

— Minha mãe, cosa esta esmeralda dentro do breve verde.

Quando as ordens do ancião foram completamente executadas, ele tomou os dois breves e, dando-me o de cor branca, disse-me:

— Tomai este breve, cuja cor exprime a candura da alma daquela menina. Ele contém o vosso camafeu: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo, dai-lho a fim de que ela o guarde com desvelo.

Eu mal compreendi o que o velho queria: ainda maquinalmente entreguei o breve à linda menina, que o prendeu no cordão de ouro que trazia ao pescoço.

Chegou a vez dela. O homem deu-lhe o outro breve, dizendo:

— Tomai este breve, cuja cor exprime as esperanças do coração daquele menino. Ele contém a vossa esmeralda: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele bom anjo, dai-lho, a fim de que ele o guarde com desvelo.

Minha bela mulher executou a insinuação do velho com prontidão, e eu prendi o breve ao meu pescoço, com uma fita que me deram.

Quando tudo isto estava feito, o velho prosseguiu ainda:

— Ide, meus meninos; crescei e sede felizes! Vós olhastes para mim, pobre e miserável, e Deus olhará para vós... Ah! Recebei a bênção de um moribundo!... Recebei-a e sai para não vê-lo expirar!

Isto dizendo, apertou nossas mãos com força: eu senti, então, que o velho ardia; senti que seu bafo era como vapor de água fervendo, que sua mão era uma brasa que queimava... Sinto ainda sobre os meus dedos o calor abrasador dos seus e agora compreendo que, com efeito, ele delirava quando assim praticou com duas crianças.

Enfim, nós deixamos aquela morada aflitos e admirados. Sós, nós pensamos no velho e choramos juntos; depois, nas crianças isto não merece reparo, a nossa dor se mitigou, para cuidarmos em brincar outra vez. De repente a menina olhou para mim e disse:

— E quando minha mãe perguntar pela esmeralda?...

Eu cuidei que lhe respondia, e fiz-lhe igual pergunta:

— E quando meu pai perguntar pelo meu camafeu?

Ficamos olhando um para o outro; passados alguns instantes, minha linda mulher, que me parecera estar pensando, disse sorrindo-se.

— Eu vou pregar uma mentira.

— E qual?

— Eu direi a minha mãe que perdi a minha esmeralda na praia.

— E eu responderei a meu pai que perdi o meu camafeu nas pedras.

— Eles mandarão procurar, sem dúvida...

— E, não o achando, esquecer-se-ão disso.

— E os breves?... Nós os guardaremos?...

— O velho disse que sim. Para que será isto?...

— Disse que é para nos casarmos quando formos grandes.

— Pois então nós os guardaremos.

— Oh! Eu o prometo.

— Eu o juro.

Neste momento soou ave-maria.

— Tão tarde! exclamou a menina…minha mãe ralhará comigo!

E, dizendo isto, correu, esquecendo-se até de despedir-se de mim. Esse fatal descuido acabava de entristecer-me, quando ela, já de longe, voltou-se para onde eu estava e, mostrando-me o breve branco, gritou:

— Eu o guardarei!

Pela minha parte entendi dever dar-lhe igual resposta, e, pois, mostrei-lhe o meu breve verde e gritei-lhe também:

— Eu o guardarei!

Aqui parou Augusto para respirar, tão cansado estava com a longa narração; porém ergueu-se logo, ouvindo à entrada da gruta.

— Alguém nos escuta! disse ele.

— Foi talvez uma ilusão! respondeu a digna hóspeda.

— Não, minha senhora; eu ouvi distintamente a bulha que faz uma pessoa que corre, tornou Augusto dirigindo-se à entrada da gruta e observando em derredor dela.

— Então?... perguntou a sra. d. Ana.

— Enganei-me, na verdade.

— Mas vê alguma pessoa?...

— Apenas lá vejo sua bela neta, a sra. d. Carolina, pensativa e recostada à Efígie da Esperança.

(continua...)

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