Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Essa Leonor do Campo, com licença del-rei, vendeu esta capitania a d. João de Alencastro, primeiro duque de Aveiro, por cem mil-réis de juro, o qual a favoreceu muito com gente e capitão que a governasse, e com navios que ela todos os anos mandava, e com mercadorias; onde mandou fazer, à sua custa, engenho de açúcar, e provocou a outras pessoas de Lisboa a que fizessem outros engenhos, em cujo tempo os padres da companhia edificaram na vila de Porto Seguro um mosteiro, onde residem sempre dez ou doze religiosos, que governam ainda agora algumas aldeias de tupiniquins cristãos, que estão nesta capitania; na qual houve, em tempo do duque, sete ou oito engenhos de açúcar, onde se lavrava cada ano muito, que se trazia a este reino, e muito pau de tinta, de que na terra há muito. Nesta capitania se não deu nunca gado vacum por respeito de certa erva, que lhe faz câmaras, de que vem a morrer; mas dá-se à outra criação — de éguas, jumentos e cabras — muito bem; e de jumentos há tanta quantidade na terra, que andam bravos pelo mato em bandos, e fazem nojo às novidades; os quais ficaram no campo dos moradores, que desta capitania se passaram para as outras, fugindo dos aimorés, no qual tem feito tamanha destruição, que não tem já mais que um engenho que faça açúcar, por terem mortos todos os escravos dos outros e muitos portugueses, pelo que estão despovados e postos por terra, e a vila de Santo Amaro e a de Santa Cruz quase despovoadas de todo; e a vila de Porto Seguro está mais danificada e falta de moradores, na qual se dão as canas-de-açúcar muito bem; e muitas uvas, figos, romãs, e todas as frutas de espinho, onde a água de flor é finíssima, e se leva à Bahia, a vender por tal. Esta capitania parte com a dos Ilhéus pelo Rio Grande pouco mais ou menos; e pela outra parte com a do Espírito Santo, de Vasco Fernandes Coutinho, para onde imos caminhando.
C A P Í T U L O XXXVII
Em que se declara a terra e costa do Porto Seguro, até o rio das Caravelas.
Da vila de Porto Seguro à ponta Cururumbabo são oito léguas, cuja costa se corre norte-sul; essa ponta é baixa, e de areia, a qual aparece no cabo do arrecife e demora ao noroeste, e está em altura de dezessete graus e um quarto. Este arrecife é perigoso e corre afastado da terra légua e meia. Da ponta de Cururumbabo ao cabo das barreiras brancas são seis léguas, até onde corre este arrecife, que começa da ponta de Cururumbabo, porque até o cabo, destas barreiras brancas, se corre esta costa por aqui, afastado da terra légua e meia. Do cabo das barreiras brancas até ao rio das Caravelas são cinco ou seis léguas, no qual caminho há alguns baixos, que arrebentam em frol, de que se hão de guardar com boa vigia os que por aqui passarem. Defronte de Jucuru está um rodela de baixos, que não arrebentam, que é necessário que sejam bem vigiados; e corre-se a costa de Cururumbabo até o rio das Caravelas, norte-sul, o qual está em dezoito graus.
Tem este rio na boca uma ilha de uma légua, que lhe faz duas barras, a qual está povoada com fazendas, e criações de vacas, que se dão nela muito bem. Por este rio acima entram cara-velões da costa, mas tem na boca da barra muitas cabeças ruins, pelo qual entra a maré três ou quatro léguas, que se navegam com barcos.
A terra por este rio acima é muito boa, em que se dão todos os mantimentos que lhe plantam, muito bem, e pode-se fazer aqui uma povoação, onde os moradores dela estarão muito providos de pescado e mariscos, e muita caça, que por toda aquela terra há. Este rio vem de muito longe, e pelo sertão é povoado do gentio bem acondicionado, que não faz mal aos homens brancos, que vão por ele acima para o sertão. Aqui neste rio foi desembarcar Antônio Dias Adorno com a gente que trouxe da Bahia, quando por mandado do governador Luís de Brito de Almeida foi ao sertão, no descobrimento das esmeraldas, e foi por este rio acima com cento e cinquenta homens, e quatrocentos índios de paz e escravos, e todos foram bem tratados e recebidos dos gentios que acharam pelo sertão deste rio das Caravelas.
C A P Í T U L O XXXVIII
Em que se declara a terra que há do rio das Caravelas até Cricaré.
Do rio das Caravelas até o rio de Peruípe são três léguas. as quais se navegam pelo canal indo correndo a costa. Neste rio entram caravelões da costa, junto da qual a terra faz uma ponta grossa ao mar de grande arvoredo, e toda a mais terra é baixa. Do direito desta ponta se começam os abrolhos e seus baixos; mas entre os baixos e a terra há fundo de seis e sete braças, uma légua ao mar somente, por onde vai o canal.
Deste rio Peruípe ao de Mocuripe são cinco léguas, o qual tem na boca uma barreira branca como lençol, por onde é bom de conhecer, o qual está dezoito graus e meio. Por este rio Mocuripe entram caravelões da costa à vontade, e há maré por ele acima muito grande espaço, cuja terra é boa e para se fazer conta dela para se povoar, porque há nela grandes pescarias, muito marisco e caça.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.