Por Padre Antônio Vieira (1672)
Sétimo inimigo: o político. Os políticos argumentam com a autoridade: Como é possível que o monarca ao universo se exponha assim a todos, cercado só de uns acidentes de pão! – Razão: Onde se conquisiam venerações, não se perde autoridade. A lançada da lado de Cristo e a Igreja. A construção da igreja de Santa Eustáquia, e os muros de Lisboa.
Ultimamente argumenta o político, e do mesmo caso que deu ocasião a esta solenidade infere não estar a pessoa soberana de Cristo naquela hóstia. Os príncipes de nenhuma coisa são nem devem ser mais zelosos que de sua autoridade. Já arriscar e expor a soberania da própria pessoa a perder vir às mãos de seus inimigos, antes perderá um príncipe a vida e mil vidas, que consentir tal afronta. E se não, lembre-se a fé do primeiro rei de Israel. Perdida a batalha dos montes de Gelboé contra os filisteus, achava-se Saul tão malferido, que nem se pedia retirar nem defender. E que resolução tomau neste caso? Tira-me por esta espada, disse ao seu pajem da lança, e mata-me: Ne forte veniant incircumsisi isti et interficiant illudentes mihi: Por que não venham estes infiéis, e me tirem a vida, perdendo o respeito (1 Rs. 31, 4). Pelo respeito e pela autoridade o havia, e não pela vida, pois se mandava matar: Não teve ânimo o criado para o executar, e lançando-se o mesmo Soul sobre a ponta da sua espada, caiu morto por não cair nas mãos de seus inimigos. Assim estimam os príncipes, e assim devem estimar mais a autoridade que a vida. Pois se tanto preço tem na estimação dos monarcas supremos a autoridade e soberania de suas pessoas, se antes quer um rei generoso tirar-se a vida por suas mãos, que poder vir às de seus inimigos, como é possível nem crível, que o príncipe da glória, Cristo, que o rei dos homens e dos anjos, que o monarca universal do céu e da terra, deixasse tão mal guardada sua autoridade, e tão pouco defendido seu respeito, como é força que o esteja, cercado só de uns acidentes de pão? Como é possível, nem crível, que deixasse tão arriscada e exposta a majestade divina de sua pessoa a cair nas mãos infiéis e sacrílegas de seus inimigos, como publicam as memórias deste dia, e a ocasião e o nome destes desagravos?
Aos outros argumentos respondi pela razão, com o que estudei; a este respondo com o que vejo. Onde se conquistam venerações não se perde autoridade. Estes são os ditames de Deus, esta foi sempre sua razão de estado. Permitiu o que choramos para conseguir o que vemos. Que maior exaltação de fé, que maior confusão de heresia, que maior honra de Cristo? Tanto rende a Deus uma ofensa, quando é a cristandade a que sente, e a nobreza a que a desagrava. As majestades e altezas do mundo, os grandes, os títulos, os prelados, as religiões, todos prostrados por terra, todos servindo de joelhos, todos confessando-se por escravos humildes, e adorando como a supremo Senhor; aquela soberana majestade, sempre venerável e sempre veneranda, mas muito mais quando ofendida. Veja agora o político se perde Deus autoridade, ou se conquista honra e glória quando permite uma indecência? Dizia esse mesmo Senhor (que sempre é o mesmo, e sempre se parece consigo): Si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad me ipsum: Quando eu for levantado da terra em uma cruz, hei de trazer tudo a mim (Jo. 12,32). A afronta da cruz foi a maior que padeceu, nem pedia padecer Cristo a mãos da infidelidade e temeridade humana, mas as conseqüências dessa mesma afronta, diz o Senhor que haviam de ser as suas maiores glórias, trazendo tudo a si. Assim o mostrou e vai ainda mostrando o cumprimento desta profecia pelo discurso dos tempos da fé universal do mundo, quase todo já trazido ao conhecimento, obediência e veneração de Cristo. Mas, se quisermos apertar mais a significação e energia daquele Si: Si exaltatus fuero a terra, nos obséquios de José e Nicodemos, se verificou na mesma cruz o Omnia trabani adme ipsum. José, como notou S. Marcos, era nobre: Nobilis decurio (Mc. 15, 43); Nicodemos, como notou S. João, era príncipe: Princeps judaeorum (Jo. 3,1). E como Cristo desde a sua cruz havia de trazer a si a nobreza e os príncipes, por isso diz que havia de trazer a si tudo: Onmia traham ad me ipsum, porque os príncipes e a nobreza é o tudo dos reinos. Escolheu Cristo aos nobres e senhores para que o tirassem do afrontoso suplício e fizessem as honras a seu corpo, porque honrar o corpo de Cristo afrontado, é ação que anda avinculada à nobreza. E quando assim trouxe a si a nobreza, diz que havia de trazer a si omnia, e não omnes; tudo, e não todos, porque os nobres não são todos, mas são tudo. Bem se cumpriu esta promessa então, mas muito melhor cumprida a vemos agora. Omnia traham ad me ipsum. Tudo o que há em Portugal, aqui o tem Cristo a seus pés.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.