Por Eça de Queirós (1887)
Mas então comecei a considerar que, para chegar a esse solo de penitência, tinha de atravessar regiões amáveis, femininas e cheias de festa. Era primeiro essa bela Andaluzia, terra de Maria Santíssima, perfumada de flor de laranjeira, onde as mulheres só com meter dous cravos no cabelo, e traçando um xale escarlate, amansam o coração mais rebelde, bendita sea su gracia! Era adiante Nápoles - e as suas ruas escuras, quentes, com retábulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os corredores de um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grécia; desde a aula de retórica, ela aparecera-me sempre como um bosque sacro de loureiros, onde alvejam frontões de templos, e, nos lugares de sombra em que arrulham as pombas, Vênus de repente surge, cor de luz e cor-de-rosa, oferecendo a todo o lábio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus seios imortais. Vênus já não vivia na Grécia; mas as mulheres tinham conservado lá o esplendor da sua forma e o encanto do seu impudor... Jesus! O que eu podia gozar! Um clarão sulcou-me a alma. E gritei, com um murro sobre o atlas, que fez estremecer a castíssima Senhora do Patrocínio e todas as estrelas da sua coroa:
- Caramba, vou fartar o bandulho!
Sim, fartá-lo! E mesmo, receando que a Titi, por avareza do seu ouro ou desconfiança da minha piedade, renunciasse à idéia desta peregrinação tão prometedora de gozos, resolvi ligá-la supernaturalmente por uma ordem divina. Fui ao oratório; desmanchei o cabelo, como se por entre ele tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da Titi, esgazeado, com os braços a tremer no ar.
- Ó Titi! Pois não quer saber? Estava agora no oratório, a rezar de satisfação, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer "Fazes bem, Teodorico, fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulcro... E estou muito contente com a tua tia... Tua tia é das minhas!..."
Ela juntou as mãos, num fogoso transporte de amor:
- Louvado seja o seu santíssimo nome!... Pois disse isso? Ai, era bem capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando... Louvado seja outra vez o seu santíssimo nome! Louvado seja em terra e céu! Anda, filho, vai, reza-lhe... Não te fartes, não te fartes!
Eu ia, murmurando uma ave-maria. Ela correu ainda à porta, numa efusão de simpatia:
- E olha, Teodorico, vê lá a respeito de roupa branca... Talvez te sejam necessárias mais ceroulas... Encomenda, filho, encomenda, que graças a Nossa Senhora do Rosário tenho posses, e quero que vás com decência e te apresentes bem lá na sepulturazinha de Deus!...
Encomendei; e, tendo comprado um Guia do Oriente e um capacete de cortiça, informei-me sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalém, com Benjamim Sarrosa & Cia., judeu sagaz, que ia todos os anos, de turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, num papel, o meu grandioso itinerário. Embarcaria no Málaga, vapor da Casa Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, num mar sempre azul, à velha terra do Egito. Aí um repouso sensual na festiva Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da Síria, aportaria a Jafa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo uma estrada macadamizada, ao chouto de uma égua doce, veria, ao fim de um dia e ao fim de uma noite, surgirem, negras entre colinas tristes, as muralhas de Jerusalém!
- Diabo, Benjamim... Parece-me muito mar, muito paquete. Então nem um bocadinho de Espanha? Ó menino, olhe que eu quero refestelar-me.
- Refestela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipóia, tem a batota, tem a mulherinha... Tudo do bom. E lá que você se refestela!
No entanto, já no Montanha e na tabacaria do Brito se falava da minha santa empresa. Uma manhã, li, escarlate de orgulho, no Jornal das Novidades, estas linhas honoríficas: "Parte brevemente a visitar Jerusalém, e todos os sacros lugares em que padeceu por nós o Redentor, o nosso amigo Teodorico Raposo, sobrinho da Excelentíssima D. Patrocínio das Neves, opulenta proprietária, e modelo de virtudes cristãs. Boa viagem!" A Titi, desvanecida, guardou o jornal no oratório, debaixo da peanha de São José; e eu jubilei, por imaginar o despeito da Adélia (leitora fiel do Jornal) ao ver-me assim abalar desprendido dela, atestado de ouro, para essas terras muçulmanas, onde a cada passo se topa um serralho, mudo e cheirando a rosa entre sicômoros...
A véspera da partida, na sala dos damascos, teve elevação e solenidade. O Justino contemplavame, como se contempla uma figura histórica.
- O nosso Teodorico... Que viagem!... O que se vai falar nisto!
E Padre Pinheiro murmurava com unção:
- Foi uma inspiração do Senhor! E que bem que lhe há de fazer à saúde!
Depois mostrei o meu capacete de cortiça. Todos o admiraram. O nosso Casimiro, todavia, depois de coçar pensativamente o queixo, observou que me daria talvez mais seriedade um chapéu alto...
A Titi acudiu, aflita:
- E o que eu lhe disse! Acho de pouca cerimônia, para a cidade em que morreu Nosso Senhor...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.