Por Eça de Queirós (1925)
E ao pé da mesa do voltarete, numa poltrona, enfartado e obtuso, dormita o obeso Amado.
Tal devia ser então uma soirée em casa do Desembargador; e naquele meio um tanto incaracterístico, a figura aprumada do jovem redactor da Bandeira, seria, decerto, de vivo destaque.
Alípio era então, digo-o afoitamente, um formoso moço: de elevada estatura, bem proporcionado, a testa larga e alta como a ideia que abrigava, os ombros sólidos de quem pode, sem esforço, sustentar um mundo, o olhar azulado, penetrante, preparado pela natureza para sondar, nas suas mais longínquas consequências, as altas resoluções políticas – um desses olhares que atravessam e exploram num breve relance todo um.31 problema complicado – a barba aloirada, em colar, como nesse tempo era ainda a moda, e se vê no retrato do imortal Garrett – tal era, aos 26 anos, o futuro Conde d'Abranhos. E posso dizer que não foi sem desapontamento (que me perdoem este expressivo galicismo) que Virgínia, as Andrades, e, ouso afirmá-lo, a bela Fradinho, viram aquele esbelto moço afastar-se da sua companhia graciosa, para ir, pausado e grave, conversar com o conselheiro, o coronel e o amigo Torres Pato.
Aconteceu mesmo que ao chá, quando Alípio – já então o excessivo calor de uma sala lhe dava opressões asmáticas – se aproximava da janela, notou que a bela Fradinho conservava na mão a sua chícara vazia. Imediatamente, como um verdadeiro Noronha, muito homem de sala, muito homem de corte, Alípio apressou-se a tomar-lha da mão, depositando-a sobre o piano. D. Luísa agradeceu, e logo com grande volubilidade:
– Creio ter visto V. Exª na galeria da Câmara dos Deputados.
– Eu frequento com regularidade as sessões da Câmara, minha senhora – foi a resposta grave do redactor da Bandeira.
E como havia junto da bela Fradinho uma poltrona vazia, sentou-se respeitosamente, e bem depressa a conversa, dirigida pela inteligente senhora, tomou um tom elevado e crítico. Falavam de oradores ilustres, dos folhetins notáveis da Revolução, de poetas e de Arte – quando Alípio percebeu com terror que as matronas, o coronel, o conselheiro, D. Laura e as duas colegiais, tinham os olhos cravados naquele diálogo isolado. Afastou-se logo um pouco, endireitando-se na poltrona; mas isto só tornava mais saliente a gesticulação animada da bela Fradinho! Então, aterrado de suspeitas possíveis, Alípio ergueu-se bruscamente. Para ele nada existia mais sagrado que a Família, e esses assaltos à honra conjugal, que a sociedade, culpadamente, complacentemente admite e até idealiza, considerava-os, como muitas vezes mo afirmou, o cúmulo da torpeza, sobretudo tratando-se de senhoras que, pela sua posição social, muito observadas, não podem trazer ao sedutor senão desgostos e embaraços na sua existência, além de darem um exemplo funesto às classes subalternas.
Foi sempre fiel a este severo princípio. É certo que o acusaram de ter relações culpadas com a mulher de um tal Bento, correeiro nas Portas de Santo Antão, mas este caso é inteiramente diferente. O correeiro era tão insensível à honra do seu lar, que consentia que sua mulher fosse visitar diariamente uma tia – que ele sabia ter falecido havia meses. Além disso, pela sua posição modesta, esta ligação nunca poderia ser posta em evidência nem andar nas conversas da cidade, não correndo assim o risco de ser uma lição perniciosa para a mocidade.
Por estas considerações – que ele pesou conscienciosamente antes de se entregar a actos libidinosos com a mulher do correeiro – Alípio julgou poder, sem risco para a ordem social e sem prejuízo para a sua carreira, permitir-se este gozo oculto.
De resto, ele compensou com nobreza a injúria moral que fizera ao correeiro, pois que, quando este artífice faliu, Alípio, então deputado, proporcionou-lhe uma proveitosa situação numa repartição do Estado.
Foi, pois, sob a influência destes altos princípios que ele se arrancou com dignidade à conversa cativante da bela Fradinho, indo mesmo dizer ao marido, que, de perna traçada, fumava na saleta próxima:
– Acabo de ter uma conversa muito filosófica com sua Ex.ma esposa, e raras vezes tenho visto uma senhora tão instruída... Discutimos Vítor Hugo...
– Ah, ah! Sim, é apreciadora! ... E eu não lhe proíbo esse gostinho, porque sou do meu século e entendo que uma mulher, para fazer figura na sociedade, deve ter o seu bocado de literatura e o seu vernizinho de filosofia.
– Tem V. Exª muita razão...
Mas tinha-se feito na sala um silêncio e havia em todos os rostos um riso mudo de.32 aprovação complacente. Dirigida por D. Amália, de seios cheios como dois odres, Julinha estava no meio da sala, amarelinha, esguia, de membrozinhos moles e olheiras fundas, e da sua boquinha aberta como o bico de um pintainho que espera um grão de milho, saía uma vozinha trémula que dizia:
É noite, o astro saudoso
Rompe a custo o plúmbeo céu;
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.