Por Eça de Queirós (1878)
Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, sobre a cômoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:
- A senhora não precisa mais nada, não?
- Vá-se, mulher, vá!
Juliana foi buscar o candeeiro de petróleo, subiu ao quarto. Dormia em cima, no sótão, ao pé da cozinheira.
Pareço-te a imagem da morte! - resmungava, furiosa.
O quarto era baixo, muito estreito, com o teto de madeira inclinado; o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno; havia sempre à noite um cheiro requentado de tijolo escandecido. Dormia num leito de ferro, sobre um colchão de palha mole coberto de uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os seus bentinhos e a rede enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova de cabelos enegrecida e despelada, um pente de osso, as garrafas de remédio, uma velha pregadeira de cetim amarelo, e, embrulhada num jornal, a cuja de retrós dos domingos. E o único adorno das paredes sujas, riscadas da cabeça de fósforos - era uma litografia de Nossa Senhora das Dores por cima da cama, e um daguerreótipo onde se percebia vagamente, no reflexo espelhado da lâmina, os bigodes encerados e as divisas de um sargento.
- A senhora já se deitou, Sra. Juliana? - perguntou a cozinheira do quarto pegado, de onde saíauma barra de luz viva cortando a escuridão do corredor.
- Já se deitou, Sra. Joana, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe o homem!
Joana, às voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia dormir! Abafava-se! Uf!
- Ai! E aqui! - exclamou Juliana.
Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou as chinelas de tapete, e foi ao quarto de Joana. Mas não entrou, ficou à porta; era criada de dentro, evitava familiaridades. Tinha tirado a cuja, e com um lenço preto e amarelo amarrado na cabeça, o seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do crânio; a camisa decotada descobria as clavículas descarnadas; a saia curta mostrava as canelas muito brancas, muito secas. E com o casabeque pelos ombros, coçando devagarinho os cotovelos agudos:
- Diga-me cá, Sra. Joana - disse com a voz discreta -, aquele sujeito demorou-se muito?Reparou?
- Tinha saído naquele instantinho, quando vossemecê entrou. Uf!
Encalmada, quase descoberta, com as pernas muito abertas, Joana coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos à minhota que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os percevejos! O raio do quarto tinha ninhos! Até sentia o estômago embrulhado.
- Ai! É um inferno! - disse com lástima Juliana. - Eu só adormeço com dia. Mas ainda eu agorareparo... Vossemecê tem São Pedro à cabeceira. É devoção?
- E o santo do meu rapaz - disse a outra. Sentou-se na cama. Uf! E então tinha estado toda anoite com uma sede!...
Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi ao jarro, pô-lo à boca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de pouca fazenda, mostrava as formas rijas e valentes.
- Pois eu fui ao médico - disse Juliana. E com um grande suspiro: - Ai! Isto só Deus, Sra. Joana! Isto só Deus!
Mas por que se não resolvia a Sra. Juliana a ir à mulher de virtude? Era a saúde certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e ungüentos para tudo. Levava meia moeda pelo "preparo".
- Que isso são humores, Sra. Juliana. O que vossemecê tem, são humores.
Juliana tinha dado dois passos para dentro do quarto. Quando se tratava de doenças, de remédios, tornava-se mais familiar.
Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir à mulher. Mas, meia moeda!
E ficou a olhar, tristemente, refletindo.
- É o que eu tenho junto para umas botinas de gáspea!
Eram o seu vício, as botinas! Arruinava-se com elas; tinha-as de duraque com ponteiras de verniz; de cordovão com laço; de pelica com pespontos de cor, embrulhadas em papéis de seda, na arca, fechadas - guardadas para os domingos.
Joana censurou-a.
- Ai! Eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os chiques!
Queixou-se também da sua miséria. Tinha pedido à senhora um mês adiantamento! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo gosto da que trazia, a desfazerem-se!
- Mas, então! - suspirou. - O meu rapaz precisou um dinheiro...
- Vossemecê também, Sra. Joana, deixa-se cardar pelo homem!
Joana sorriu.
- Ainda que eu tivesse de roer ossos, Sra. Juliana, a última migalha havia de ser para ele!
Juliana teve um risinho seco, e com a voz arrastada:
- Vale lá a pena!
Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse daquele amor, pelas suas delícias. Repetiu, contrafeita:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.