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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— E tu quem és?- Frederico Friedlann, cidadão prussiano. — Ah! — disse eu. — Viajo por conta da primeira fábrica de produtos químicos de Budapeste, dos quaissou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriais da Europa.

— Bem! — observei.Ele continuou impassivelmente: — Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa três prédios de que ele tinha notícia, os quais se achavam abandonados depois de algum tempo por terem ganhado famade serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar suces sivamente nas casas que ele me indicou e é esta a primeira que habito. Componho um livro com investigações arespeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo?

— Pois não! — tornei-lhe eu. — Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora resi dindo em Lisboa, e ocupando-me de quando em quando com a polí tica ou com a literatura, quando não tenho outra coisa menos insí pida e menos inútil em que agitar a minha ociosidade e o meu tédio. Não sou espiritista.

— Pois faz mal! O espiritismo é um sistema e pode bem suce der que venha ainda a seruma religião.

— Puff. — exclamei rindo. — O quê! — continuou ele. — O materialismo, guiado de um la do pelas conquistas dasciências físicas e naturais e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporâneos e pela depressão sucessiva e assustadora da moral, vai comendo no campo da filo sofia oespaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas cren ças e novas doutrinas virão sucessivamente substituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O ho mem, que segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindirdo maravilhoso, desse atractivo supremo da sua imagi nação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela ciência futura, a teoria de uma tal ou qual sobrevivência que o lisonjeie, e a base de correlações ainda não estu dadas dos seres que existem com aqueles que os precederam e com os que se lhe hão-de seguir. Os espiritistas de hoje serão, de entre todos os filósofos contemporâneos que não querem aceitar em absolutoo dogma estéril desconsolador da matéria omnipotente, os únicos que hão-de colaborar na filosofia do futuro.- Ora há-de dar-me licença que lhe pergunte uma coisa...

— Tem-me às suas ordens. — Sem com isto querer fazer agravo ao seu juízo!- Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza dela.

— Acredita em alguma das coisas em que esteve aí falando o homem que veio ajudá-lo a mudar a cama?Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava falando com um doido, com um visionário, com um monomaníaco, ou simplesmente com um homem de espíritoextravagante, com um excêntrico.

— Eu não creio nem também descreio de coisa alguma que ouço — responde-me ele. — É meu sistema admitir tudo quanto esteja para se provar ç duvidar de tudo aquilo que meapresentem como coisa positiva. É o único meio prudente de nunca nos afastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de há pouco, tem uma parte da história desta casa. Negueiquanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei como senhorio do prédio a desvanecer com as minhas informações o anátema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distintamente há duas noites consecutivas um rumor insistente eprolongado semelhante aos estalidos que produz, ao atear-se, uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar comonem porquê, se move, sem que ninguém lhe toque, do centro da mesa em que o coloquei para uma das extremi dades dela. O pó aglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vai dei xando sucessivamente sobre asuperfície da mesa o vestígio desse movimento vagaroso, lento, quase imperceptível, mas progressivo e constante. Nesta porta, ao pé da qual coloquei hoje a cama, ou ço em cadanoite, ora por duas ora por três vezes, uma argolada per feitamente clara e distinta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazê-lo do modo mais rápido), fica sempre inexplicável para mim a razão por que se levanta a ar gola do ferrolho ebate de per si mesma na porta!

Todas estas coisas eram asseveradas pelo prussiano com a ên fase da sinceridade e daconvicção mais profunda! — E desta casa de cá — observei-lhe eu — que tem ouvido? O que sabe? Que lhe consta? — Eu lhe digo...

— Sinceramente! — Por mim pessoalmente nada tenho ouvido, O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silêncio da noite um rumor confu so de vozes, o estalar de risadas e o tilintar dedinheiro. Alguns vizinhos têm visto entrar vultos misteriosos. Tudo isto, porém, se ex plica do modo mais natural deste mundo.

— Qual é então o seu juízo, vejamos?- É evidentemente...

— Diga! Diga!- Presumo eu, pelo menos... — Vamos! Sem rodeios, francamente! — De duas uma: ou uma loja maçónica, ou uma casa de jogo.

IV

(continua...)

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