Por Eça de Queirós (1925)
— Justamente, e homens de sociedade. Apelou para nós, se nós devíamos consentir um duelo, quando não havia motivos, e quando o Machado, numa carta que o Nunes me deu a ler, lhe afirmava sob a sua sagrada honra de homem, que a sra. dona Ludovina era inocente, perfeitamente inocente. Não houvera mais que umas cartas tolas trocadas, sem importância, e aquele abraço... Ora agora, dizia o Nunes: o que faz um duelo? Compromete a sra. dona Ludovina, faz crer ao público que houve realmente adultério, torna ridículo o sr. Alves e prejudica a firma comercial...
— E o dilema do Nunes – lembrou do lado o Carvalho.
— É verdade, o dilema – gritou Medeiros, recordando-se. – O Nunes apresentou este dilema: os senhores pedem a espada, se houve adultério o duelo à espada é ainda pouco; se o não houve é demais. De maneira que resolvemos que não houvesse duelo...
Godofredo não dizia nada. Mas uma sensação de paz e de serenidade invadia-o silenciosamente. Aquelas grandes afirmações do Nunes, um rapaz de tanta honra, quase o convenciam de que realmente não houvera senão um galanteio. Ele mesmo o dissera: se estivesse convencido que havia adultério, não se teria metido nisso. E não, que era um verdadeiro fidalgo. Ora se era um simples galanteio não havia realmente motivo para que se batessem, e isto dava-lhe um alívio, mil idéias abomináveis desapareciam, outras surgiam, de repouso, de tranqüilidade, talvez de felicidade ainda. Decerto não perdoaria a sua mulher aquele simples galanteio. Não tornaria a falar ao Machado. Mas a vida ser-lhe-ia menos amarga pensando que eles realmente o não tinham traído.
Aquilo consolava o seu orgulho. E mostrava que era um marido rígido, e de honra – expulsando sua mulher só pôr um simples olhar trocado. Assim a sua honra estava salva, o seu coração sofria menos.
E agora invadia-o uma alegria, de sair enfim daquelas idéias violentas de morte, em que andava envolvido, e reentrar na rotina da vida, no seu negócio, nas suas relações, nos seus livros. Mas então, à idéia da rotina, da casa comercial, uma idéia tomou-o, encheu-o de perturbação.
— E o Machado? Eu não posso falar mais ao Machado!
Mas Medeiros tinha discutido esse ponto com o Nunes. E fora o Nunes que tivera uma idéia de bom senso. Aqui está o que o Nunes dissera. Desde o momento em que não há motivo para duelo, não há motivo para que se interrompam as relações comerciais...
Godofredo protestou:
— Então há-de amanhã entrar pelo escritório?
— Quem te diz amanhã, homem? Aqui está o que disse o Nunes, é o que faz o Machado. Amanhã escreve-te uma carta oficial, para que o guarda-livros veja, e o caixeiro, dizendo que vai para fora da terra, com a mãe, e que te pede que olhes pela casa, etc... Depois, ao fim de um ou dois meses, volta, vocês cumprimentamse, sentam-se cada um a sua carteira, falam no que têm que falar acerca do negócio, e acabou-se. O que não têm é relações íntimas, escusam mesmo de se tratar pôr tu.
E como Godofredo olhava o chão, refletia, os dois caíram sobre ele.
— Tapas assim a boca ao mundo – disse o Carvalho.
— Salvas-te do ridículo – disse o Medeiros.
— Manténs a firma intacta e unida...
— Livras tua mulher de má fama!...
— Conservas um sócio inteligente e trabalhador. — E talvez um amigo!
Então uma fadiga invadiu Godofredo. Os seus nervos relaxaram. Veio-lhe um desejo de não pensar mais naquele desgosto, não falar mais nisso, dormir tranqüilo; e cedeu, abandonou-se, perguntou com a voz do coração:
— Então vocês acham, em sua honra, que assim tudo fica bem? — Achamos – disseram ambos.
Godofredo apertou a mão a um, depois ao outro, comovido, quase com lágrimas:
— Obrigado, Carvalho. Obrigado, Medeiros.
Depois, para fazer logo tapar as bocas do mundo, foram ao Passeio Público – onde havia essa noite iluminação e fogo preso, indo primeiro tomar sorvete ao Martinho.
CAPÍTULO VIII
Então começou para Godofredo uma existência abominável.
Tinham passado semanas e Machado voltara, ocupava agora, como sempre, a sua carteira no gabinete de reps verde. Godofredo temera sempre aquele encontro, não julgara possível que eles pudessem passar dias, um ao lado do outro, manejando os mesmos papéis, tocando-se pôr mil interesses comuns, com a idéia daquele dia nove de julho, aquele encontro sobre o sofá. Mas pôr fim tudo se passara convenientemente, e não havia atritos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.