Por Eça de Queirós (1901)
S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvaziou poderosamente dois copos de Chateau-Lagrange. Todos o aclamavam como um pescador genial. E os escudeiros serviam o Barão de Pauillac, cordeiro das lezírias marinhas, que, preparado com ritos quase sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no Nobiliário de França.
Eu comi com o apetite dum herói de Homero. Sobre o meu copo e o de Dornan o Champanhe cintilou e jorrou ininterrompidamente como fonte de Inverno. Quando se serviam ortolans1 gelados, que se derretiam na boca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a “Santa Clara”. E como, do outro lado, o moço de penugem loura insistia pela destruição do velho mundo, também concordei, e, sorvendo Champanhe coalhado em sorvete, maldissemos o Século, a Civilização, todos os orgulhos da Ciência! Através das flores e das luzes, no entanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, que ria como uma bacante. E nem me apiedava de Jacinto que, com a doçura de S. Jacinto sobre o cepo, esperava o fim do seu martírio e da sua festa. Ela findou. Ainda me recordo, às três horas da noite, o Grão-Duque na antecâmara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar com as mangas de peliça que Jacinto e eu lhe ajudamos a enfiar – convidando o meu amigo, numa efusão carinhosa, a ir caçar às suas terras da Dalmácia...
-Devo ao meu Jacinto uma bela pesca, quero que ele me deva uma bela caçada!
E enquanto o acompanhávamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta escada onde o mordomo procedia erguendo um candelabro de três lumes, S. Alteza repisava, pegajoso:
-Uma bela caçada... E também vai Fernandes! Bom Fernandes, Zé Fernandes! Ceia superior, meu Jacinto! O Barão de Pauillac, divino... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... Não venham fora! Não se constipem!
E do fundo do cupé, ao rodar, ainda bradou:
-O peixe, Jacinto, desencalha o peixe! Excelente, ao almoço, frio, com um molho verde!
Trepando cansadamente os degraus, numa moleza de Champanhe e sono em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Príncipe:
-Foi divertido, Jacinto! Suntuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o elevador...
E Jacinto, num som cavo que era bocejo e rugido:
-Uma maçada! E tudo falha!
Três dias depois desta festa no 202 recebeu o meu Príncipe inesperadamente, de Portugal, uma nova considerável. Sobre a sua Quinta e solar de Tormes, pôr toda a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco e água. Com as grossas chuvas, “ou pôr outras causas que os peritos dirão” (como exclamava na sua carta angustiada o procurador Silvério), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o vale da Carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rústica do século XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos veneráveis desses Jacintos jaziam agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silvério já começara com os moços da Quinta a desatulhar os “preciosos restos”. Mas esperava ansiosamente as ordens de sua Exª...
Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo e firme desde os Godos, que de repente ruía! Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, uma história, confundidas num lixo de ruína!
-Coisa estranha, coisa estranha!...
E toda a noite me interrogou acerca da serra e de Tormes, que eu conhecia desde pequeno, porque o velho solar, com a sua nobre alameda de faias seculares, se erguia a duas léguas da nossa casa, no antigo caminho de Guiães à estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha: - e muitas vezes, depois da minha intimidade com Jacinto, eu entrara no robusto casarão de granito, e avaliara o grão espalhado pelas salas sonoras, e provara o vinho novo das adegas imensas...
-E a igreja, Zé Fernandes?... Entraste na igreja?
-Nunca... Mas era pitoresca, com uma torrezinha quadrada, toda negra, onde há muitos anos vivia uma família de cegonhas... Terrível transtorno para as cegonhas!
-Coisa estranha! – murmurou ainda o meu Príncipe, agourado.
E telegrafou ao Silvério que desatulhasse o vale, recolhesse as ossadas, reedificasse a Igreja, e para esta obra de piedade e reverência, gastasse o dinheiro, sem contar, como a água dum rio largo.
V
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.