Por Raul Pompéia (1881)
Ele tinha expansões. Era do seu caráter exibir-se de vez em quando voltado ao avesso. Punha na rua todas as franquezas. Franquezas ou fraquezas, como queiram, porque no caso vertente Tancredo era franco a respeito de si próprio.
Há no Norte o costume grotesco de andarem os cafajestes, durante o entrudo, com os paletós virados, mostrando o forro e as costuras, por causa do polvilho que se arremessa aos transeuntes. Tancredo fazia uma cousa assim, mais ou menos. Quando estava de lua, lá saía... Todas essas intimidades que o recato encobre, todo esse estofo que forma o avesso das aparências sociais, ele punha à mostra. Inventava, no gênero cômico, o extremo oposto de Tartufo. Exibia desabridamente o forro de si mesmo.
Alguns dias depois de casado encontra-se ele com o primeiro conhecido. Era por um dia dos tais. Falam do consórcio.
Estou roubado! bradou Tancredo.
- Pois esse casamento não era o teu sonho de ventura?!
- Ah! meu amigo. Enganei-me redondamente... Sabes o meu gênio... Eu sonhava um amor defogo. Chamas, chamas, chamas, um amor vulcânico, feito de incêndio e lava, um inferno de amor que me calcinasse o peito... Imagina lá que me saiu uma esposa fria!... Fria, meu amigo!... Estou casado com o polo Norte em pessoa!... Lembras-te do Capitão Hatteras de Júlio Verne?...Minha mulher é aquilo... Ora só a mim sucederia uma destas... Casado com um iceberg!
- Pois não a conhecias?
- Ora, qual! ver, amar, casar, foi o que fiz...
"Sonhava uma mulher ardente, com pólvora nas veias, capaz de voar pelos ares ao fogo da minha paixão. Qual explosão nem nada!... Aos meus afagos, boceja! Desarma os meus carinhos com uma frieza revoltante... Não sei a que expediente recorrer...
- Mas a tua esposa não te ama?
- Eu lá sei!... As mulheres frias amam alguém neste mundo? O que afianço é que a minha carametade me congela... Não sei como, a estas horas, não estou sorvete, exposto aos rigores daquele inverno!... Inverno, meu bom amigo, inverno para mim que sonhava um matrimônio de primaveras e verões. Quem diria! quando eu me inflamava ao fogo daquele olhar... que naquele olhar não havia fogo! Tanto viço, tanta mocidade! e uma frieza tamanha.
Ao vê-la, eu acreditava na embriaguez do amor, na febre do sentimento, no vinho de Hebe e nos seus efeitos. Qual vinho de Hebe! Puro Fritz, Mack & C. Ainda em cima, frappé!...
"Estou roubado! roubado nas minhas ilusões!... Queria uma mulher... E o senhor meu sogro serviu-me uma cajuada! Ora, cajuadas tenho eu no Leite Borges!... Banhos frios, de igreja... quando tinha o meu chuveiro!...
- Homem, Tancredo, não acredito muito nessa história de mulheres de gelo... A questão éachar-se a corda sensível...
- Qual corda sensível!... Minha mulher não tem corda sensível!...
Raul Pompéia
CARICATURAS REAIS
O Piano
Dó... ré... mi... fá... sol... mi... fá... ré... dó...
Grande cousa o piano!
Os dotes da educação, pensava Maria das Dores, suprem perfeitamente a falta de dotes físicos... Por que não? Cada um caça como pode.
Pois, uma insinuante escala cromática não valerá um requebro de olhar, uma semicolcheia não valerá um sorriso, o pianíssimo não poderá fazer vezes de um traço de meiguice diluído pela fisionomia?!
A arte poderosa inventa beleza. Uma donzela desprestigiada pela boa fada da formosura bem pode salvar o deficit, adquirindo um dote artístico. A música... a música, por exemplo, impressiona, cativa como os belos olhos!
Dó... ré... mi... fá... sol... mi... fá... re... dó...
Maria das Dores era feia.
Cara comprida, o queixo a estender-se-lhe para baixo como se quisesse alojar-se entre as clavículas; o nariz, delgada lâmina em forma de leme, erguida no meio do rosto, com receio talvez de que se vissem um ao outro os implicantes olhinhos; os olhos negros, miúdos, brilhantes, encravados em fundas órbitas; testa larga, cabelos rareados... Feia incontestavelmente.
Os dezessete anos sugeriram a arrojada hipótese do casamento. Arrojada é bem dito, porque Maria das Dores tinha a difícil franqueza de se achar feia. Feia de cara, pior de corpo..... uma carcaça.
Aos dezessete anos encontraram-se de frente a carcaça e a hipótese.
Maria das Dores, a principio, recuou espavorida como se houvesse visto um espelho. Em nossos maiores desalentos, porém, encontramos sempre a saída falsa de uma esperança. A donzela lembrou-se oportunamente da arte. Sabia que algumas moças haviam inspirado até paixão sendo feias, graças aos sedutores recursos do talento musical, muito capaz de acordar sentimentos simpáticos que só um belo semblante, em geral, produz.
De combinação com o pai, a moça atirou-se ao método de Huntem.
Dó... ré... mi... fá... sol... mi... fá... ré... dó...
Alguns anos rodaram.
Maria das Dores ficou mais velha.
O pai dava festinhas em casa. Os rapazes apareciam.
A menina tocava piano.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.