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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

Uma gargalhada do secretário acolheu as últimas palavras de Evaristo, comunicando-se a D. Branca e a Adelaide, que ia abrindo a boca para lamentar "a sua linda cama de ramagens e o seu querido toucador de mármore...".

— Então, vais mandar tudo para o depósito!...

E Furtado novamente ria, batendo com as mãos na mesa, inclinando a cabeça, sapateando.

— Impagável o nosso Evaristo! Simplesmente impagável esse homem com a sua filosofia de algibeira e com os seus ímpetos!

— Não te rias, que estou falando sério! — Por isso mesmo...

E Furtado confessou generosamente, aprumando-se na cadeira, que os móveis tinham sido comprados por ele. Não fizera mais do que um dever de amigo.. . Restava saber se o Evaristo opunha-se à qualidade sofrível do guarda-roupa...

— Qual opor-me! - disse o bacharel todo humilhado com a fineza do secretário. - Escolheste a dedo!

— Mas não para ser entregue ao depósito.

— Para o depósito vou eu mandar os baús de couro e umas velharias do meu tempo de província.

E não se tornou a falar nos móveis e a estima do bacharel pelo secretário aumentou. Evaristo não perdia ocasião de gabar o Furtado, exaltando-lhe o coração generoso, a grandeza d'alma e outras virtudes que ele pouco a pouco ia descobrindo no seu velho colega de Liceu... Um homem como se não encontravam muitos na terra do egoísmo e da hipocrisia, nesse Rio de Janeiro fundamentalmente pervertido, onde as traições contavam-se pelas amizades e ninguém dava crédito senão ao ouro e à maledicência... Um homem que o recebera no seio da própria família e que, depois de o hospedar em casa, inda lhe emprestava dinheiro e fazia surpresas como a da mobília! Era o que se podia chamar um filantropo, um amigo excepcional!

— Que achas?

Adelaide confirmou os elogios, mostrando-se reconhecida às boas intenções do secretário, qualificando-o de generoso, de nobre, de fidalgo, emprestando-lhe todos os caracteres de homem de bem que não alardeia as ações meritórias que pratica. O Sr. Furtado era um exemplo de delicadeza e cavalheirismo. - Evaristo não via como ele a tratava? Interessava-se por ela como por uma irmã; nas refeições, nos passeios, à noite, quando jogavam. E a mulher também, a D. Branca. Ambos muito amáveis!

— São simpatias... são simpatias... — explicava o bacharel, acendendo o cigarro, com uma ponta de vaidade. — Tudo neste mundo é a gente se insinuar... O orgulho mata a aspiração, enfraquece o estímulo.

De manhã, vinham os dois, ele e a esposa, almoçar em companhia dos Furtado, como pensionistas dum botei, e Adelaide passava quase todo o dia embaixo, na sala de jantar, com D. Branca, até à hora da segunda refeição, lendo romances, relendo jornais, discutindo modas, costurando. Uma vida sem preocupações, nem intrigas. D. Sinhá, do desembargador, é que às vezes ia interrompê-las com histórias de namoro e bilhetinhos e novidades de Botafogo, sempre muito misteriosa e muito coberta de pó de arroz. Furtado não gostava dela, não lhe achava encanto e profetizava-lhe horrores!

Que mais podia querer Adelaide? Que outras ambições podia desejar Evaristo? Perguntasse-lho, e eles não saberiam responder. Tinham casa, cômodos independentes. boa mesa, boas amizades, tudo por pouco dinheiro, graças à generosidade do secretário, cuja dedicação parecia aumentar.

— E o piquenique no Jardim Botânico? — lembrou Furtado uma bela manhã.

— É verdade, o piquenique? — repetiu D. Branca.

— Por mim, é quando quiserem — disse o bacharel. — Ninguém mais do que eu aprecia o campo, as árvores, o ar fresco, e o perene correr de um fio d'água.

— Você por que não determina? — perguntou Branca ao marido. — Tantas manhãs boas para a gente se divertir!

Furtado marcou o primeiro domingo de sol. Convidava-se unicamente o visconde de Santa Quitéria. Nada do desembargador, nem de pessoas estranhas. Havia de ser um piquenique familiar, uma coisa toda íntima sobre a relva macia, bem longe da entrada do jardim. debaixo de uma árvore.

— Ao champanha? — perguntou D. Branca com os olhos faiscantes, numa alegria súbita.

— Ao champanha, sim, ao champanha. Um piquenique delicado e de bom gosto, como se usa em Petrópolis e na Europa... Toilettes claras, roupas leves, menu à francesa, encomendado ao Pascoal!... e que ninguém se lembre de morrer enquanto houver sol e árvores na natureza!

— Não convidas a Tourinho?

Mas Furtado declarou inda uma vez que só convidava o visconde, isso mesmo porque devia muitos favores ao Santa Quitéria.

— Nem ao Dr. Condicional? — gracejou Evaristo.

Furtado esboçou um risinho, compreendendo a ironia, e não respondeu.

(continua...)

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