Por Inglês de Sousa (1891)
E, intrigada, a caseira colocou sobre a mesa grande a palangana de café, e pôs-se a interrogar o professor com os olhos. Fidêncio começou, narrando:
— João Pinheiro era um fazendeiro apatacado, mas muito amigo de guardar o que tinha. A fazenda dele ficava à beira da estrada e era escolhida pelos viajantes para descansarem durante as horas mais quentes do dia, pois era justamente no meio do caminho da cidade... da cidade... enfim, duma cidade para outra. Sempre que chegava algum viajante, João Pinheiro gritava para dentro:
— Moleque, traze café para este homem.
O moleque, lá de dentro, respondia:
— Já, sim, siô.
O viajante ficava com a boca doce, esperando refrescar-se com o cafedório do João Pinheiro.
Passava um quarto de hora... e nada.
— Moleque, olha esse café! gritava o fazendeiro. — Já vai, sim, siô.
O viajante, que já estava com a garganta seca de engolir em falso, concebia uma esperança.
Passava outro quarto de hora... e de café, nem lembrança.
— Moleque, vem ou não vem esse café? perguntava o João Pinheiro.
E o moleque:
— Já vai já, sim, siô.
O viajante puxava o relógio, sentindo não ter tempo de esperar que fizessem o fogo.
Passava outro quarto de hora:
— O moleque do dianho, então esse marvado café não vem hoje? — Já vai agora mesmo, meu siô.
O viajante levantava-se e despedia-se, farto de esperar.
— Este dianho de moleque, dizia o João Pinheiro, apertando a mão ao hóspede, esse dianho de moleque é assim mesmo.
E acrescentava muito aborrecido:
— Que vexame sair V.S.a sem beber café!
Montando a cavalo, o viajante ouvia ainda o moleque gritar lá de dentro:
— Já vai, sim, siô.
A Maria Miquelina pôs as mãos nas ilhargas, rindo muito.
— Este diacho de seu Chico tem cada história! Pois o homem havera de fazer isso mesmo?! Ara tome lá o seu café, que este não é do João Pinheiro.
Fidêncio sorveu o café, gole a gole. Depois a caseira voltou para o seu trabalho, e o professor foi procurar alguma coisa que ler. Era preciso matar o tempo.
Acendeu um cigarro, abriu uma gaveta e procurou entre vários folhetos de diversas cores e tamanhos um que lhe desse vontade de reler. Eram panfletos anticlericais, com títulos prometedores: Os jesuítas desmascarados. A maçonaria e a Companhia de Jesus. Os jesuítas, simplesmente. As astúcias de Roma. A questão religiosa. A Igreja e o Estado. O jesuíta na garganta, cena cômica. Os lazaristas. Recurso à coroa... uma infinidade! Todos com pseudônimos: Ganganelli, Sebastião José de Carvalho, Fábio Rústico, Um livre-pensador, Um verdadeiro católico, O velho católico, O padre Jacinto, Jacolliot... o diabo! Obras de erudição, discursos declamatórios, panfletos virulentos, de escacha-pessegueiro, que trituravam, moíam e reduziam a pó a Igreja, o papado, os bispos e os homens de roupeta, pondo em pratos limpos, com segurança indiscutível, a história da papisa Joana, os crimes dos Bórgias, os horrores da inquisição e os sofismas audaciosos do Sr. D. Antônio. Ali, naqueles folhetos, discutia-se com lucidez e verdade a questão religiosa! Faziam-se estatísticas, enumeravam-se as vítimas da inquisição na Espanha, as mortes da noite de S. Bartolomeu, em França. Mostrava-se o que era Roma, explicavam-se as patifarias dos cardeais, somavam-se os milhões roubados da Companhia de Jesus. Não havia fugir. Estava ali provado, perfeitamente provado, e o que os padres respondiam eram sofismas.
Fidêncio tomou um dos folhetos, grande, massudo, de capa amarela e tipo doze. Intitulava-se: A mônita secreta, por Um antigo jesuíta. Era incrível o que aquele livro dizia. Era um horror!
Francisco Fidêncio foi buscar à mesa grande o Magnum Lexicon, colocou-o sobre a extremidade dum dos bancos, para lhe servir de travesseiro.
Deitou-se no banco, ao comprido, trançou as pernas, tirou uma fumaça do cigarro e abriu o panfleto, murmurando:
— Patifes!
Um livro assim é que ele queria ter escrito. Quisera ter sido jesuíta, conhecer todos os segredos da Ordem, apanhar-lhe as manhas, e depois vir a público, com uma coragem extraordinária, pôr pela imprensa todas aquelas bandalheiras a nu.
Um dia ainda reuniria em folheto as suas correspondências, formaria um folheto como aqueles, de capa de cor, com o título pomposo em letras gordas e com um pseudônimo. O seu pseudônimo seria: o padre Quelé. Era de arromba!
Ninguém ficaria sério, lendo-o. O diabo era não haver em Silves uma tipografia!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.