Por Aluísio Azevedo (1895)
As secreções da pele são às vezes um terrível inimigo das ilusões do nosso amor de hoje, mesmo aquelas que a natureza em nós criou ingenuamente para lubrificante estímulo dos sentidos. É que a natureza não contava com a degeneração do olfato, produzida pelo abuso, pelo vício, dos perfumes, das essências, dos desinfetantes e vinagres aromáticos, e mais das balsâmicas pastilhas de serralho e do odorante fumo do tabaco. O homem e a mulher, que se casam, só vêm a conhecer um do outro o verdadeiro cheiro, depois de rigorosamente unidos pelos inabrocháveis fechos do matrimônio, quando está mais que provado que, no amor, o cheiro particular do indivíduo tem ação tão poderosa como a cor da sua tez e dos seus cabelos, como o timbre da sua voz, a expressão do seu olhar e da sua boca, o feitio do seu corpo e o caráter geral do seu modo de ser. O olfato tem as suas idiossincrasias, tem as suas antipatias e as suas inclinações, como as têm o ouvido, o paladar, os olhos e o tato. Nos esponsais, os direitos desse sentido, tão respeitáveis como os dos outros seus congêneres, são perfeitamente ludibriados pela perfumaria de toucador, sem calcularem os noivos o perigo que com isso corre a sua futura felicidade doméstica.
O cheiro natural do corpo é por vezes o bastante para desfazer o laço amoroso de um par, mormente quando um bom perfume artificial, usado com insistência e regularidade, tenha, de parte a parte, como que servido de medianeiro durante o tempo de namoro. Os perfumistas são, sem dar por isso, grandes promovedores e grandes dissolvedores de casais.
O gosto e o desgosto do olfato têm máxima importância na questão do amor genesíaco. A mulher, durante certos períodos fisiológicos, deve ser para o marido um ente inacessível, deve ser sagrada; já não digo só com respeito à comunhão sexual, mas ainda para a simples coabitação do leito ou do quarto. Ele, durante esse tempo, nem só não lhe deve tocar no corpo, como até nem dela se deve aproximar.
Eu digo — sagrada: a Bíblia lhe chama — imunda.
E já explicou um filósofo humorista que o casamento era sempre uma permuta, mas não de almas e corações, e sim: durante o dia — de maus humores; durante a noite — de maus odores.
Não convenho nesta jocosidade de mau gosto, mas a mulher, com efeito, naquelas ocasiões, torna-se repulsiva pelo cheiro. A mesma natureza como que assim está insinuando que o homem deve então afastar-se da esposa. O homem, porém, é teimoso e deixa-se ficar; fica por falsa compreensão dos seus deveres de ternura, ou fica por negligência e preguiçosa sujeição aos hábitos.
E a mulher afinal torna-se grávida, e o imprudente continua a dormir ao lado dela. Vêm as enojosas manifestações da crise gestante, as dores matrizes, os enjôos, as desagregações pituitárias, os vômitos, o mau hálito, as aberrações histéricas do gosto — e o teimoso não se despega.
E começa então para os dois uma existência de indecoroso promiscuidade; já não escondem absolutamente um para o outro os seus bocejos e as suas mais repulsivas expansões do corpo. É como se não estivessem juntos; cada qual, sem poder fugir à indefectível necessidade do isolamento — pois que todo o homem precisa de horas de solidão, como precisa de horas de sono, de horas de trabalho e de horas de convivência e prazer — e, não podendo evitar nos seus lazeres a presença do companheiro, abstrai-o do espírito, e acaba por ficar só, inteiramente só, ao lado dele.
E se um dos dois adoece gravemente, fica o outro a servir-lhe de enfermeiro, a mudar-lhe as roupas enxovalhadas, a aplicar-lhe vesicatórios, a dar-lhe purgantes e a ajudá-lo em todos os mais íntimos misteres.
Mas onde está, que fim levou, aquele airoso dançador de valsas, aquele gentil mancebo, que não seria capaz de exibir-se a ninguém, e muito menos à noiva, senão depois de caprichosamente apurado na roupa, no cabelo, nos dentes e nas unhas? aquele irresistível galanteador, que dizia coisas tão finas e que fazia versos tão lindos, e trescalava a sândalo ou cananga-do-japão? E onde está aquela mocinha vaporosa, que era toda graça, delicadeza e perfumes, e que mostrava uma cintura e uns pezinhos tão provocadores, e uma cabeça tão primorosamente penteada, e um colo, e uns olhos, e uma boca, tão misteriosos e divinos?...
— Oh! Isso foi durante o tempo do namoro! dizem eles. — Hoje somos “papel queimado!” Hoje somos “feijão com carne-seca!”
— Muito bem! replico eu; mas os dois que se amaram eram aqueles dois que desapareceram e não vós, que agora aí estais defronte um do outro, sem saber por que e para quê!
— Oh! mas agora nós nos estimamos muito mais. Se desapareceu a ilusão do amor, ganhamos em compensação um pelo outro uma bela amizade que dantes nos não ligava.
— Mas, adorável casal, tu te não constituíste para formar dois bons amigos íntimos, que nenhuma reserva têm entre si e que só desejam conservar a sua boa amizade! Tu, mancebo desiludido, e tu, querida dama despenteada, não vos unistes pelos laços da amizade, mas sim pelos laços do amor, o que é muito diferente; e, uma vez que já não existe amor entre vós, continuai amigos, mas separai-vos de corpo; que vá cada um procurar além novo consórcio para o seu amor, porque ainda podeis ser aproveitados para a única verdadeira missão que a natureza exige de vós, procriar, e procriar bem.
Ora, respondem eles. Mas nós somos felizes assim!...
— Não sois tal! Ah! eu conheço já de longa data essa confissão de felicidade a vosso modo! Vós, maridos, sois todos muito felizes; mas quem tomar a sério os vossos próprios conselhos, não se casará nunca, porque cada um de vós, enquanto pela prática justifica o casamento, vai segredando pela boca pequena, ao ouvido de cada um dos amigos: “Eu, cá por mim, não me posso queixar; fui feliz! Não tenho que dizer; mas, aceita o meu conselho — não te cases! Não te cases nunca! É um conselho de amigo, podes crer!”
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.