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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Parecia ser, com effeito, a peroração. O Rufino arrebatára o lenço, limpara a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado, voltando-se para as cadeiras reaes com um tão ardente gesto d'inspiração - que o collete repuxado descobriu o começo da

ceroula. Foi então que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas não era só essa soberba esmola que deslumbrava o Rufino - porque elle, «como todos os homens educados pela philosophia e que têm a verdadeira orientação mental do seu tempo, via nos grandes factos da historia não só a sua belleza poetica, mas a sua influencia social. A multidão, essa, sorria simplesmente, enlevada, para a incomparavel poesia da mão calçada de fina luva que se estende para o pobre. Elle porém, philosopho, antevia já, sahindo d'esses delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O quê, meus senhores? O renascimento da Fé!»

De repente, um leque que escorregára da galeria, arrancando em baixo um berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoção. Um commissario do sarau, D. José Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do tablado, com o seu laçarote de sêda vermelha na casaca, dardejando severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam «chut, silencio, fóra!» E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando duramente... Então Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim mais longe, com um chapéo azul, entre a Alvim toda de preto e umas vastas espádoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de Craben. Todo o rumor findava - e o Rufino, que molhára lentamente os labios no copo, avançou um passo, sorrindo, com o lenço branco na mão:

- Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação mental d'este seculo...

Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impressão de que o padre ao lado cheirava mal. E não aturou mais, furou para traz, para desabafar com Carlos.

- Tu imaginavas uma besta assim?

- Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?

Ega não sabia, todo o programma fôra alterado.

- E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante, d'azul... Hei de querer vêr logo esse encontro!

Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente «bonsoir, messieurs...» Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas. E immediatamente Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...

- Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assuré que la reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je suis venu. C'est très ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santé?

- Merci...

Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça n'uma tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura d'uma aldeia, a aldeia em que elle nascera, ao pôr do sol. E o seu vozeirão velava-se, enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Então Steinbroken, subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande orador de que lhe tinham fallado...

Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!

- Em qual génerro?...

- Genero sublime, genero de Demosthenes!

Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração, fallou em filandez ao seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques debaixo do braço, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do sublime.

Rufino, no emtanto, com as mãos descahidas, confessava uma fragilidade de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus irrefutavelmente, - elle fôra dilacerado pelo espinho da

descrença! Sim, quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle passára junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire...

Um largo fremito d'emoção passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam : murmurar «muito bem, muito bem...»

Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a Natureza que atacava seus filhos! - E lançando os braços, como quem se debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundação... Aqui aluia um casal, ninho florido d'amores; além, na quebrada, passava o balar choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando um botão de rosa e um berço!...

(continua...)

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