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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

VI

Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorára no corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:

- Então, definitivamente, v. exc.ª não vem ao sarau da Trindade?...

Ella voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a walsa lenta que lhe cantava entre os dedos:

- Não me interessa, estou muito cançada...

- É uma sécca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se estirára consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.

Ega protestou. Tambem era uma massada subir ás Pyramides no Egypto. E no emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias póde um christão trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia... Ora a snr.ª D. Maria, n'este sarau, ia

vêr por dez tostões uma coisa tambem rara,- a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao mesmo tempo nua e de casaca.

- Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a caminho!

Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiça.

- Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino... Vamos lá, Carlos, mexe-te!

Mas Carlos implorou clemencia:

- Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do Hamlet. Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam mais tarde...

Então Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel, enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar a canção d'Ophelia, de que Maria já murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:

Pâle et blonde,

Dort sous l'eau profonde...

Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porém o encantava Maria que nunca lhe parecera tão bella: o vestido claro que tinha n'essa noite modelava-a com a perfeição d'um marmore: e entre as velas do piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e

tons d'ouro esfiado no cabello - o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, são, perfeito... E quanto aquella serenidade da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da sua paixão! Carlos era positivamente o homem

mais feliz d'estes reinos! Em torno d'elle só havia facilidades, doçuras. Era rico, intelligente, d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só tinha o numero d'inimigos que é necessario para confirmar uma superioridade; nunca soffrera de

dyspepsia; jogava as armas bastante para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o irritava. Sêr verdadeiramente ditoso!.

- Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pés pelo tapete, quando Maria findou a canção d'Ophelia.

Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...

Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:

- É esse grande orador de que fallavam na Toca?

Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo de Coimbra, o José Clemente, homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um ratão de pera grande, deputado por Monção, e sublime n'essa arte, antigamente nacional e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'um voz de theatro e de papo, combinações sonoras de palavras...

- Detesto isso! rosnou Carlos.

Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idéas, como um passaro n'um galho d'arvore...

- É conforme a occasião, observou Ega, olhando o relogio. Uma valsa de Strauss tambem não tem idéas, e á noite, com mulheres n'uma sala, é deliciosa...

Não, não! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só póde servir para dar forma, ás idéas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma marcha a uma criança, ella ri-se e salta no collo...

- E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho secca-se e berra!

- Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto e espiritualista, que não tenha um fraco pela força, pelos athletas, pelo sport, pelos musculos de ferro. E nós, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes, um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica. E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot, voar á Trindade, n'um receio de perder o Rufino.

Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:

- Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven; nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia d'ideal!...

- E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.

- Melhores poetas, affirmou Carlos.

- Bons charutos!

- Bom cognac!

(continua...)

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