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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Ega protestou, já excitado. O Publico não se importava!? Essa era curiosa! O Publico então não se importa que lhe fallem de livros que elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a população de Portugal, caramba, é igual aos grandes successos de Paris e de Londres... Não, Melchiorzinho amigo, não! Esse silencio diz ainda mais claramente e retumbantemente que as palavras: «Nós somos incompetentes. Nós estamos bestialisados pela noticia do snr. conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos High-lifes, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo em descompostura e calão, por toda esta prosa chula em que nos atolamos... Nós não sabemos, não podemos já fallar d'uma obra d'arte ou d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello livro de viagens. Não temos nem phrases nem idéas. Não somos talvez cretinos - mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito alto - nós chafurdamos aqui muito em baixo...»

- E aqui tem você, Melchior, o que diz, através do silencio dos jornaes, o côro dos jornalistas!

Melchior sorria, enlevado, com a cabeça deitada para traz, como quem goza uma bella ária. Depois com uma palmada na mesa:

- Caramba, ó Ega, muito bem falla você!... Você nunca pensou em ser deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: «O Ega! O Ega é que era, para atirar alli na camara a piadinha á Rochefort. Ardia Troia!» E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o charuto - Melchior arrebatou a penna:

- Você está em veia! Diga lá, dicte lá... Que hei de eu aqui pôr sobre o livro do Craveiro?

Ega quiz saber o que escrevera já, o amigo Melchior. Apenas tres linhas: «Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simão Craveiro. O precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias d'este prestigioso escriptor, é publicado pelos activos editores...» E aqui o Melchior emperrára. Melchior não gostava d'aquelle frouxo termo - activos. Ega então suggeriu - emprehendedores. Melchior emendou, leu:

- «...publicado pelos emprehendedores editores...» Ora sêbo, rima!

Arrojou a penna, descorçoado. Acabou-se! Não estava em verve. E além d'isso era tarde, tinha a rapariga á espera...

- Fica para ámanhã... O peor é que já ando n'isto ha cinco dias! Irra! Você tem razão, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! Não é lá pelo livro, não me importa o livro... É pelo Craveiro, que é bom rapaz, e demais a mais pertence cá ao partido!

Abriu um gavetão, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal - quando entre elles surgiu a face chupada e nervosa do Gonçalo, com a sua gaforinha perpetuamente erguida como por uma rajada de vento.

- Que está o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?

- Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande phrase do Gouvarinho...

O Gonçalo pulou, com uma faisca de malícia no olhos negros de algarvio esperto.

- A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!

Travou do braço do Ega, puxou-o para um canto da janella:

- É necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha outra deliciosa. Eu não me lembro bem, o Neves é que sabe!

É uma coisa da Liberdade conduzindo á mão o corcel do Progresso... O quer que seja assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calções de jockey, o Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle Gouvarinho! E os outros, menino, os outros!

Você não foi á camara quando se discutiu a questão de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia, estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim não é peor que a Bulgaria.

Historias! Nunca houve uma choldra assim no universo!

- Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.

O outro recuou com um grande gesto:

- Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tróço por gosto, como artista!

Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparavel para o paiz - esse immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter.

Assim, alli estava o amigo Gonçalo, como homem de intelligencia, considerando o Gouvarinho um imbecil...

- Uma cavalgadura, corrigiu o outro.

- Perfeitamente! E todavia, como politico, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella rinche ou escoucinhe.

Gonçalo correu lentamente a mão pela gaforinha, com a face franzida:

- É necessario, homem! Razões de disciplina e de solidariedade partidaria... Ha uns compromissos... O paço quer, gosta d'elle...

Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:

- a ahi umas questões de syndicatos, de banqueiros, de concessões em Moçambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!

E como Ega se curvava, vencido, cheio só de respeito - o outro, faiscando todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:

- Meu caro, a politica hoje é uma coisa muito differente! Nós fizemos como vocês os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginação, a phantasia, o ideal... Hoje é a realidade, a experiencia, o facto positivo, o documento. Pois cá a politica em Portugal

(continua...)

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