Por Eça de Queirós (1888)
Mas, através d'essa admiração e do prazer de roçar por elle, percebia-se-lhes um vago medo que aquelle «robusto talento» lhes pedisse, n'um vão de janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho como orador. Não que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses historicas do José Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas não havia outro para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do touro! E era a grande coisa na Camara - ter a farpa, sabêl-a ferrar!
- Ó Gonçalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquetão claro.
O Gonçalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu o pescoço magro n'um collarinho muito decotado, lançou de lá: - A do trapezio? Divina! Conta á rapaziada!
A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, á espera da «do trapezio». Fôra na amara dos Pares, na reforma da instrucção.
Estava fallando o Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e queria as meninas a fazerem a prancha.
Gouvarinho ergue-se e atira-lhe esta:
«Snr. presidente, direi uma palavra só. Portugal sahirá para sempre da senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nós fôrmos ao ensino, com mão impia, substituir a cruz pelo trapezio!» - Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
E no murmurio de admiração que se ergueu destacou um ganido - o do rapaz mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota na bochecha côr de tomate: - Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae é um grandissimo carola!
E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado á cruz. Mas já o Neves, de pé, bravejava:
- Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho carola! Está claro que tem toda a orientação mental do seculo, é um racionalista, um positivista... Mas a questão aqui é a réplica, a tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de lá com a descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse tão atheu como Renan, zás! atira-lhe logo para cima com a cruz!...
Isto é que é a estrategia parlamentar! Pois não é assim, Ega?
Ega murmurou, através do fumo do charuto:
- Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se espreguiçava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr. João da Ega - que fallasse á gente e guardasse o seu dinheiro...
Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, tão engraçado, tão querido de todos:
- Então, na grande faina, Melchior?
- Estou aqui a vêr se faço uma coisa sobre o livro do Craveiro, os Cantos da Serra, e não me sae nada em termos... Não sei o que hei de dizer!
Ega gracejou, de mãos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o Melchior:
- Nada! Vocês aqui são simples localistas, noticiaristas, annunciadores. D'um livro como o do Craveiro têm só respeitosamente a dizer onde se vende e quanto custa.
O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da nuca:
- Então onde queria você que se fallasse dos livros?... Nos reportorios?
Não, nas Revistas Criticas: ou então nos jornaes - que fossem jornaes, não papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez por baixo e o resto cheio com «annos»,
despachos, parte de policia e loteria da Misericordia. E como em Portugal não havia nem jornaes sérios nem Revistas Criticas - que se não fallasse em parte nenhuma.
- Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece pensar em nada...
E com toda a razão, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio provinha do natural desejo que têm os que são mediocres de que se não alluda muito aos que são grandes. É a invejasinha reles e rastejante! Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provém sobretudo d'elles terem abdicado todas as funcções elevadas d'estudo e de critica, de se terem tornado folhas rasteiras d'informação caseira, e de sentirem por isso a sua incompetencia...
- Está claro, não fallo por você, Melchior, que é dos nossos e de primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem incompetentes...
O Melchior ergueu os hombros com um ar cançado e descrente:
- Calam-se tambem porque o publico não se importa, ninguem se importa...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.