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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— O que quer o Sr. Albuquerque é impossível, Virgínia — disse ela resolutamente. Se a tua felicidade depende de ajuntar-me novamente àquele de quem me separei, sentindo nas faces a impressão de uma ameaça e no coração os espinhos de inumeráveis afrontas, então serás infeliz, pobre filha, porque semelhante sacrifício é superior às minhas forças. Não me separei de teu pai por leviana, caprichosa ou desonesta; separei-me por ter conhecido que maior desgraça seria para mim e talvez para ele, continuarmos unidos do que separados. O muito que então padeci está constantemente a pôr-me diante dos olhos o muito que deverei padecer se tornar à sua companhia, na qual não tive uma impressão de verdadeiro prazer que resgatasse as humilhações, as contrariedades, os vexames, os desgostos que me causou, sem dar mostras do menor pesar, antes revelando que se comprazia em ver-me representar o papel de vítima. Tem paciência, minha filha. Deixaremos em poucos dias esta casa. Outra há de ter aberta para nós as suas portas. Não tenho vivido até hoje do meu trabalho? Ele não me há de faltar fora daqui. Tenhamos confiança em nós.

Virgínia, como se acabasse de ouvir a sua sentença de morte, mostrou no rosto dobrada expressão de mágoa íntima. Levantou-se e pegou uma das mãos de sua mãe, que levou aos lábios por certo requinte de ternura.

— E Paulo, mamãe? - interrogou com voz chorosa e comovida.

Nesse momento, bateram à porta do quarto. Virgínia desdeu a volta da chave, e a luz da vela que ardia sobre a mesa a um dos ângulos do aposento esclareceu a face de um homem. Era Albuquerque.

Maurícia foi ao seu encontro. Ele pegou-lhe da mão e conduziu-a para junto da mesa. Sentaram-se aí, tendo ambos nos rostos os tons sombrios do pesar que traziam no espírito. Foi Albuquerque o primeiro que falou.

— Não quis deixar para amanhã o que eu devia dizer-lhe já.

— Estimo muito saber que o senhor dá a devida importância a um acontecimento que parece destinado a influir diretamente na minha vida.

— Que é isto, D. Maurícia? - interrogou o senhor de engenho com ares de quem estranhava o procedimento dela, que dera causa à sua visita. O que foi que tão inesperadamente a compeliu a praticar um ato contrário a todo o seu passado de há três anos? Todos notamos que a senhora, que sempre deu provas de ajuizada, se recusasse a aparecer a seu marido, cuja volta à minha casa fora assentada por mim no pressuposto de que lhe mereceria, quando não a satisfação do seu dever logo que eu chamasse para ele a sua atenção, a prática ao menos de uma delicadeza.

— Neste ponto, o senhor tem razão, e eu peço-lhe desculpa, disse Maurícia. Fui descortês para o senhor, mas não podia deixar de ter semelhante descortesia quando o meu sossego exigia que destruísse imediatamente no espírito do meu marido qualquer esperança de reconciliação que ele alentasse. Eu devia ser cruel para esse homem, embora hoje se considere honrado com o título de meu marido, outrora puro objeto de desprezo. Eu precisava dar uma demonstração decisiva da minha eterna esquivança a quem só esquivança me merece.

Albuquerque não esperava de sua hóspede palavras tão positivas.

— Quanto me parece extraordinário o que acabo de ouvir! — disse. É então certo que a Sra. D. Maurícia insiste na sua recusa? É então certo que a senhora de educação distinta, de moralidade até hoje inatacada, que recebi em minha casa, quando as casas dos seus parentes se lhe mostravam fechadas, umas por não querem eles recebê-la, outras porque não o podiam, está resolvida a deixar-me ficar mal em um empenho em que entrei com a minha honra? Por mais que o diga, não acredito nas suas palavras. Mas não é isto o essencial nesta ponderosa questão.

Não é a descortesia, não é o desamor, não é a ingratidão...

— Senhor, atalhou Maurícia, mereço-lhe mais consideração e mais justiça. Sou sua hóspeda, é verdade; devo-lhe atenções e gratidão, é certo; mas não pratiquei antes do ato que ainda se discute, nenhum outro que lhe dê o direito de magoar-me gratuitamente, quando já não tenho no meu coração espaço para novas mágoas.

Albuquerque sobresteve durante um momento a esta justa e elevada represália.

— Não se ofenda, observou com moderação; não vim aqui para ofendê-la. Voto-lhe particular estima. Quero vê-la superior a qualquer juízo menos digno. Mas ponhamos de parte estas circunstâncias. Quer a senhora saber ao que dou a primeira importância neste assunto? Não é às relações próximas ou remotas que porventura me liguem a ele; não é a parte com que entre nele a sua pessoa; é ao futuro desta inocente e infeliz menina para quem tenho hoje os sentimentos de pai.

Assim falando, o senhor do engenho apontava para Virgínia, que, sem proferir uma só palavra, mas sem perder nenhuma das que se proferiam, tinha os seus lindos e meigos olhos a relancearem inquietos e observadores, ora para Albuquerque, ora para Maurícia; e no que dizia cada um dos dois buscava penetrar o segredo de sua duvidosa sorte.

(continua...)

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