Por Franklin Távora (1878)
Ainda bem não tinha Benedicto finalizado esta inocente ameaça, quando Lourenço atirava para longe o facão. - Para te quebrar os beiços, negro, eu não preciso de arma.
Era o que Benedicto queria; seu adversário estava desarmado. Então investiu contra ele como fera. Aparentemente, Benedicto representava ser mais forte do que Lourenço. As ceroulas azuis arregaçadas até aos joelhos, deixavam á mostra pernas musculosas, que acusavam grande força física. O negro mesmo tinha consciência de sua robustez; do seu tope nenhum morador de quatro léguas em redondo lhe era superior. Por isso, tendo lá para se que podia com Lourenço, atirou-se sobre ele no pressuposto de o derrubar e pôr debaixo dos pés logo ao primeiro ímpeto.
Nunca porém uma falsa crença teve mais pronta e estrondosa desilusão. Agarrar-se com Lourenço foi o mesmo que se agarrar com um touro bravo. Mal sabia ele que, além da imensa força física, de que nunca supôs possuidor, tinha Lourenço meneios, jeitos e passos que o habilitavam a dar em terra com o mais corpulento animal. Em um instante o trêfego rapaz atirou o negro, não sobre a areia, mas dentro da cova próxima, onde havia um abismo de fogo, parte ainda em chamas, parte já em carvões, mas ainda vivos e ardentes.
E esta operação, rápida como passar de faisca elétrica, seguiu-se um grito nu de agonia, que atroou os ares. Benedicto, que estava nu da cintura para cima, sentira no corpo, nas mãos, nos pés as dores trazidas pelo fogo.
Esse grito medonho e a vista que inesperadamente se apresentou aos olhos de Lourenço, produziram nele súbita comoção. O impulso de fera, que o levara a atirar na cova o adversário, foi instintivo, inevitável, fatal: não lhe deu tempo a refletir; tinha passado tão rápido como o pensamento, e em seu lugar estava agora a razão.
Lourenço correu a uma tora meio queimada que se via a um lado sobre a areia, e, pegando dele, e metendo-o imediatamente na cova, como se o fizera em um poço para impedir que se afogasse aquele que aliás estava nadando em puro fogo, gritou da beira da cova a Benedicto, com voz comovida:
- Pegue-se neste pau e suba por ele para não se queimar. Eu nem pensei no fogo que havia ai dentro.
Era ainda cedo e o casal de pretos, inquilinos da palhoça, o qual tinha ido á Goiana, a serviço do engenho, só poderia estar de volta sobre a tarde ou talvez no dia seguinte.
Quando Benedicto disse isto a Lourenço, sentiu este ainda maior abalo. A situação afigurou-se-lhe então mais difícil e penosa do que ao principio lhe parecera. Quem trataria do negro, que se revolvia, em gritos, já salvo do fogo, mas preso das extensas queimaduras, sobre folhas secas á sombra de um cajueiro próximo? Era possível que ele ficasse assim desamparado por todo esse tempo? E os gritos de dor que cada vez aumentavam mais, e o terror da situação que se tornava mais pungente e cruel, como resistir a eles sem tratar de os remediar?
Lourenço ficou abatido um momento, mas logo tornou em se e disse á vitima dos seus maus instintos:
- Não grites, não chores, que vou chamar minha mãe para tratar de ti.
Esta inspiração, que transluziu como reflexo de prazer intimo, em seu semblante, pouco tempo antes anuviado pela sombra do desgosto, rápida se desvaneceu, deixando em seu lugar no espirito do rapaz um sem numero de interrogações, cada qual mais acerba e atroz.
- Que dirá minha mãe quando souber do que eu fiz? perguntava ele em silêncio a se mesmo. Para que tomei eu esta vingança? Porque não esqueci de todo a ofensa passada? Minha mãe, meu pai, seu padre Antônio que já me quer tanto bem, que idéia ficarão fazendo de mim d’ora em diante? Um me chamará mau, outro cruel, outro desumano, coração de tigre. Minha mãe dirá que perdeu comigo seus conselhos; meu pai dirá que, em lugar de trabalhar, ando eu fazendo mal aos outros sem me lembrar de que ele só me encaminha para o trabalho. E seu padre Antônio, oh meu Deus, seu padre, que se mostra tão meu amigo, de que modo não me ficará tratando d’ora por diante? Ainda ontem ele me fazia escrever esta passagem da Escritura: “Que homem haverá por acaso entre vós, que tenha uma ovelha, e que, se esta lhe cair no sábado em uma cova, não lhe lance a mão para dai a tirar!”(S.Mat.cap.XII vers.11). Eu fui o primeiro a atirar, por vingança e malvadeza, dentro de uma cova cheia de fogo, não uma ovelha, mas um meu semelhante! Ho meu Deus! Como vai ficar descontente de mim seu padre Antônio por eu ter praticado um ato tão desumano.
Lourenço deitou a correr para que mais depressa chegasse o socorro ao aflito.
Quando Marcelina soube do que acontecera, foi ela própria com o marido e Lourenço buscar o negro queimado para a casa do Cajueiro, a fim de tratar dele, visto que, morando longe da palhoça, não podia estar a tempo e a hora prestando os serviços e cuidados de que precisava o doente.
Lourenço, quando punha os olhos neste, inclinava-os logo abatidos ao chão. O remorso, o desgosto, a vergonha pesavam como anéis de chumbo em suas pálpebras.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.