Por Bernardo Guimarães (1872)
Dir-se- ia que o Major mui de propósito fazia aquela confidência a seu futuro genro para sondar sua generosidade e provocar o seu oferecimento. Mas não era assim; o major fazia-lhe aquela revelação porque entendia que era de seu dever, e procedia por um impulso de franqueza que lhe era natural. A princípio, portanto, o generoso oferecimento do jovem baiano o perturbou e desconcertou algum tanto; mas depois penetrou-lhe na alma como o raiar de uma dupla esperança. nesse enlace estava a felicidade da filha e a salvação de sua fortuna.
- Não, senhor! perdão! nem falemos nisso- replicou o Major algum tanto enfiado; longe de mim a idéia de lhe ser pesado; e o que diria o povo? . . .
- E que tem o povo com os nossos negócios, e nós com o que ele dirá?
- Dirá, e com aparências de verdade, que contratando este casamento especulei com a sua generosidade.
- Não tem direito a dizer tal. Sabia eu por acaso do estado dos seus negócios quando lhe pedi a filha em casamento? e entretanto, desde que aqui cheguei, as pirei a ser seu genro. E há nada mais natural do que o genro socorrer ao sogro, ou o sogro ao genro? Sois demasiadamente escrupuloso, senhor major.
- Pode ser; mas. . .
-mas. . . nem falemos mais nisso, caro Major; são horas de nos divertirmos.
Algumas pessoas, que chegaram e vieram cumprimentar o Major, acabaram de pôr termo àquela conversação.
Leonel foi sentar-se ao pé de Lúcia, que já tinha voltado à sala. A coitada parecia que estava assentada em uma cadeira de ferro em brasa. Seu olhar era incerto, mudava de cor a cada momento, mal respondia às perguntas que Leonel lhe dirigia, e às vezes parecia querer levantar-se bruscamente, e deitar-se a correr pela casa a dentro. Mas aos olhos de Leonel tudo isto tinha uma explicação, aliás plausível para quem não conhecia o estado do coração de Lúcia. Era o acanhamento que resulta da emoção que sente toda a moça ao ver perto de si um homem apenas conhecido, e que tem de ser seu marido.
O Major por sua parte, pouco conversava, e andava pensativo, ocupado em refletir nos meios que empregaria em um novo assalto que projetava dirigir contra o coração da filha, para reduzi-la a dar o sim. Agora, que nesse casamento via também a reabilitação da sua fortuna, é fácil conceber com que novo ardor e encarniçamento estava disposto a ataca-la.
Lúcia, por sua parte, só esperava com a maior impaciência pelo momento de recolher-se para dar livre curso a seus pensamentos e a suas lágrimas.
VII - O SACRIFÍCIO
No outro dia Lúcia acordou, ou antes levantou-se, pois bem pouco dormira, cheia de sustos e de tristes
pressentimentos; mas procurou ocultar do melhor modo que pôde suas inquietações, e premunir-se de força e resolução para afrontar os novos embates que a ameaçavam. Por um lado a atormentava a posição extrema em que se via colocada pelas instâncias do pai, posição de que não via outro meio de escapar-se, senão rendendo-se à discrição ou por meio de uma confissão, que, em vez de aplaca-lo, atrairia sobre ele a cólera de seu pai. Por outro lado a torturava a cruel incerteza em que se achava a respeito da sorte de Elias, do qual nem notícias tinha, posto que já tivesse findado o prazo de dois anos, dentro do qual prometera voltar ou dar notícias suas. Pensava na distância imensa que os separava, nos imensos perigos que o rodeavam por aqueles sertões infestados de assassinos e salteadores e infeccionados de epidemias mortíferas, e a esperança a abandonava, e sua alma se entregava a um desalento mortal.
Estava extremamente pálida e triste; liam-se no semblante os vestígios de uma noite velada no sofrimento, mas em sua fisionomia como que transluzia a altivez de uma resolução inabalável.
O Major, que espiava com impaciência o momento em que Lúcia despertasse, dirigiu-se a seu quarto, logo que a sentiu levantada.
-minha filha. . . mas estás tão pálida e desfeita! ! . . . estás sofrendo alguma coisa?
- Nada, meu pai. . . é um incômodo passageiro. Sempre que me deito tarde, passo mal.
- Ah! não admira; não estás acostumada a estas palestras e folguedos até alta noite.
- É verdade, meu pai; e quanta saudade não tenho da nossa boa vida da roça! . . . quando voltaremos para lá?
- Não sei dizer-te. Talvez breve, talvez nunca.
- Nunca! . . . como assim, meu pai?
- Para falar-te com franqueza, isto depende de ti; está em tuas mãos.
- Em minhas mãos? . . . explique-se meu pai; cada vez o entendo menos.
- Sim; de ti e só de ti depende isso.
- Não posso saber como?
-senta-te aí e escuta-me; tenho coisas importantes a dizer-te.
A estas palavras Lúcia sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, e fechar-se-lhe o coração como a um sopro gelado.
Trêmula e pálida assentou-se na cama, enquanto seu pai puxava uma cadeira e sentava-se junto dela.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.