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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

– Nada, minha mãe, graças a Deus. Não tive senão perda de sangue, estou perfeitamente bom. O tratante, continuou ele, esqueceu-se também de dizer, que fui levado em braços para a casa do fazendeiro, e que forçoso me foi ficar ali longos dias para curar minhas feridas e restabelecer minhas forças quase de todo esgotadas em razão da imensa perda de sangue; que se fui tratado com todo o carinho e desvelo pelo pai e pela filha, é porque nenhuma outra coisa se devia esperar de pessoas de coração bem formado e agradecido vendo-me em tal estado, ainda que nenhum serviço tivessem de mim recebido.

Esqueceu-se também o infame velhaco, que essa moça desde criança está prometida em casamento a um primo e vizinho seu, que a estima extremosamente; enfim que por esses motivos todos foi-me indispensável demorar pela Uberaba muito mais do que seria preciso para aviar meus negócios, sofrendo não pequenos prejuízos. Ah! maldito mexeriqueiro! – concluiu Eduardo espumando de raiva e dando sobre uma mesa um murro furioso. – Não sei onde estou, que não vou já arrancar-te essa língua danada e com ela essa alma de lama!.. mas todo o tempo é tempo. Amanhã... amanhã temos de ajustar contas, infame trapaceiro.

– Sossega, meu filho; não te ponhas a perder por tão pouco. A culpa não é tanto do Hipólito. Se a Lucinda e sua gente tivessem grande empenho no teu casamento, não teriam acreditado tão de leve nesses mexericos. Olha o que te digo; os Ferreiras não estão lá muito bem de fortuna, por mais que se diga. O Hipólito tem fama de possuir mundos e fundos, posto que seja um gangolina, um trapaceiro. Demais é ainda parente deles, e essa gente gosta muito de casar parente com parente e por isso é que vai saindo essa perrada mofina que estás vendo. E tu, meu filho, não passas de um principiante, e eis aí por quê...

– Seja lá como for, minha mãe, – interrompeu com impaciência o filho, – em todo o caso é uma tremenda desfeita, que me fizeram, um desaforo, que não posso por nada agüentar de cara alegre, e de que mais tarde ou mais cedo, desta ou daquela maneira juro que hei de me vingar.

– Cala-te, filho; o melhor modo de te vingar é não te dares por achado. Deus e o tempo é que te hão de vingar. O tal Hipólito além de ser um paspalhão muito sem graça, é um atroado, um libertino. A senhora Lucinda, oh! Essa nunca me enganou, e Deus me perdoe, – está me parecendo, que vem a dar em uma... refinada sirigaita...

– Que está dizendo, minha mãe?...

– Não te enfades, Eduardo; não queiras tomar as dores por quem te atraiçoa... quer me parecer, que esse casamento... não é praga, que estou rogando, não; Deus tal não permita; – quer me parecer, que não pode acabar bem.

– Dê no que der, juro que não hão de ter muito alegre a sua lua-de-mel. Pelo menos hei de quebrar a cara àquele tratante.

– Deixa-te disso, menino; é como te disse, não te dês por achado. O desprezo é a melhor vingança, e a única que eles merecem. Finge mesmo que vieste apaixonado pela linda uberabense, e que te julgas feliz por te terem aliviado de uma carga, que outra coisa não é a tua Lucinda, e deixa correr trinta dias por um mês. Enfim, meu filho, há muito tempo de conversar: sossega esse coração e vai descansar, enquanto eu vou prepararte uma boa ceia.

– É escusado, minha mãe; não tenho fome nenhuma, a boca amarga-me como fel, e a minha cabeça é uma brasa.

– Quem sabe, tens algum ramo de febre.

– Qual febre! a minha febre é a raiva, é o desespero.

– Ora por quem és, esquece-te disso e vai descansar.

– Não estou cansado, minha mãe; vou passear para distrair-me um pouco.

– Passear! não caias em tal. Olha, não vás fazer por aí alguma loucura, Eduardo.

– Protesto que nada farei, minha mãe.

– Não quero que saias; mandarei avisar os teus amigos de tua chegada; com eles te distrairás.

– Ora, minha mãe, o passeio me convinha mais; para que incomodar os amigos?...

– Não, não, Eduardo; não sairás; se és meu filho, hás de me obedecer.

A velha retirou-se, e Eduardo, que nunca nem mesmo nas mais insignificantes coisas desobedecera a sua mãe, deixou-se ficar em casa.

Capítulo VIII

Lucinda e Paulina

O leitor por certo pensará, que vai ter lugar um terrível duelo; que Eduardo ardendo em cólera e ciúmes desatende às ordens de sua mãe, espera que esta esteja adormecida, salta pela janela, e com uma pistola na mão e um punhal no seio introduz-se misteriosamente na sala, onde se festejam as bodas da formosa Lucinda, como o cavalheiro negro da Noite do Castelo, e aí prega uma bala na cabeça do feliz rival, ou pelo menos o esbofeteia em pleno baile, arranca da cabeça da noiva a grinalda nupcial e a calca aos pés rugindo. Depois de ter feito tudo isto, sem que os assistentes, imóveis de assombro, ousassem opor-lhe o menor embaraço, desaparece, esvai-se como um fantasma. Isto seria por certo mais dramático, e talvez mesmo sublime. Mas eu conto uma história, e não invento um conto; quero portanto narrar os fatos com aquela fidelidade, que permite-me a minha memória, tais quais mos contaram há bastantes anos.

(continua...)

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