Por José de Alencar (1878)
Hermano esperou, com a emoção que assalta todo homem de caráter ao tomar tão grande responsabilidade. Não era a primeira vez que tinha essa emoção. Lembrou-se do momento em que pedira a mão de Julieta. O passado, que parecia morto, ressurgiu e apoderou-se dele.
Ficou estupefato, vendo-se ali naquela casa e encontrando-se nessa última fase de sua existência, que ele se espantava de ter vivido. Parecia-lhe sonho esse período. Não compreendia como ele, o marido de Julieta, acreditara que pudesse nunca substituí-la por outra mulher.
O capitalista concluiu a sua conta e voltou-se para a visita. Trocaram algumas palavras sobre o calor que tinha feito durante o dia, e calaram-se.
— Está próxima a sua viagem à Europa? disse Hermano depois de uma pausa.
— É verdade! Daqui a dois meses.
— Sabe que já fiz esta viagem? Posso dar-lhe algumas informações úteis.
Hermano falou um quarto de hora sobre Paris e Londres sem consciência do que dizia; o Sr. Veiga ainda absorvido nas suas parcelas de caixa não lhe prestou a menor atenção; e assim terminaram a entrevista.
Os convidados compreenderam a conveniência de retirarem-se mais cedo; o que, porém, os decidiu a usar dessa atenção foi o desejo de espalharem logo, naquela mesma noite, a notícia do rompimento, pois outra coisa não era o que se acabava de passar.
O Teixeira, que chegara tarde, quis atenuar o procedimento do amigo, e teve com D. Felícia longa explicação.
Parece que tocou nas excentricidades do viúvo atribuindo a elas a sua hesitação, o que a senhora moralizou com esta exclamação:
— Então bem diz o Borges. É um maluco e foi uma felicidade que eu o descobrisse, antes de dar-lhe minha filha.
Amália tinha-se recolhido. A mãe foi achá-la pensativa:
— Tu sabes quanto desejo ver-te casada, Amália; mas antes fiques toda a vida solteira, do que teres a desgraça de aturar um doido.
— A sua doidice, mamãe, também eu a tenho. Ele ama!...
— A ti? perguntou D. Felícia com ironia.
— A mim também; mas não me ama bastante para fazer-me sua mulher.
— Não te faltam maridos.
Amália, durante as suas breves relações com Hermano, costumava à tarde sentar-se no jardim, em um caramanchão que ficava perto da grade, mas oculto pelas trepadeiras. Ali viam-se de passagem, conversavam um instante, e separavam-se para de novo reunirem-se à noite na sala.
Passados os primeiros dias depois do rompimento, a moça tornou a esse hábito, talvez na esperança de que ele facilitasse a aproximação de Hermano. Ela adivinhara a razão que havia determinado a súbita mudança do amante; mas queria ouvi-la de seus lábios.
Com efeito uma tarde, ao escurecer, ouviu o rangido da areia sob os passos de alguém que se aproximava; não ergueu os olhos do livro, mas pressentiu que era ele; e não se enganava.
— Não venho pedir-lhe perdão. Não o mereço; e a senhora não pode e não deve conceder. Desejo, porém, que saiba a causa do meu procedimento, para que não duvide um instante de si e do respeito e admiração que me inspirou. Quer ouvir-me?
— Fale, murmurou a moça comovida.
— No momento de ligar para sempre o seu ao meu destino, hesitei; apoderou-se de mim um grande terror. Tive medo de fazer a sua infelicidade.
— Por quê?
Hermano concentrou-se um momento.
— Quem possui a sua beleza e a sua alma, tem o direito de ser amado exclusivamente, sem
reservas e sem partilhas. A senhora não pode ser a simples companheira do homem a quem se unir. É preciso que esse homem lhe pertença, que viva inteiramente de sua afeição, que se consagre todo à sua felicidade. Se ele tivesse uma idéia, uma preocupação, uma reminiscência, que o disputasse ao seu amor, cometeria uma infidelidade; e a senhora havia de exprobrar-lhe o tê-la enganado. Podia eu, conhecendo-a como a conheço, sacrificar o seu futuro, que deve ser tão brilhante?
Amália pousou os seus belos olhos no semblante de Hermano.
— Tem razão, disse ela docemente. O meu amor não basta para encher tão completamente a sua vida, que não haja lugar nela para outra afeição. Desde que o passado ainda vive em sua alma, o que iria eu fazer senão perturbar a tranqüilidade de seu espírito e profanar as suas recordações? É melhor assim; guardaremos pura e sem ressaibo a lembrança desses poucos dias que vivemos juntos.
Ela ergueu-se, estendendo a mão ao amante.
— Adeus, Hermano.
— Amália!... Talvez.
— Não façamos do nosso amor um galanteio de sala. Já esqueceu Julieta e poderia esquecê-la nunca?
Hermano não respondeu.
— Bem vê que é impossível.
A moça afastou-se lentamente. Hermano entrou na sua chácara; e sentou-se no primeiro banco. A lua vinha assomando no horizonte.
Ouviram-se prelúdios de piano; e uma nota melancólica e suavíssima cortou o silêncio da noite.
Era a voz de Amália que soluçava o Addio del passato da Traviata.
Capítulo 13
Amália, durante a longa vigília daquela noite, se compenetrara bem da situação, em que a tinham colocado os acontecimentos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.