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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

As onze horas da manhã eu esperava por Emília, no lugar que ela me designara na véspera. Era um bosque espesso de bambus, que ficava distante da casa, mas dentro ainda de sua chácara. Para chegar ali, atravessei o mato, que se estendia desde a minha habitação pela encosta da montanha. Tomara o disfarce de caçador, a fim de que o nosso encontro parecesse imprevisto. 

Instantes depois de chegado, ouvi rugir o palhiço dos bambus que tapetava o chão; Emília apareceu. 

Vinha só. 

Confesso-te, Paulo, que eu senti nesse momento tiritar-me o coração de frio. Apesar do que Emília me dissera na véspera, o fato de querer ela achar-se a sós comigo num ermo, me parecia tão impossível, estava isso tão fora dos nossos costumes brasileiros , que eu repelira semelhante idéia. Acreditava que ela se faria acompanhar de sua criada ao menos, dando-me assim unicamente a liberdade da confidência, por que eu tanto suspirava. 

Entretanto Emília conservava a mesma serenidade que tinha no salão; ao vê-la parecia que ela praticava o ato o mais natural. Sorria graciosa. Nem um longe rubor no cetim da face; nem uma névoa nos olhos límpidos e calmos. 

E ela tinha razão, Paulo, de conservar essa plácida confiança. 

Havia na sua beleza um matiz de castidade, que a resguardava melhor do que um severo recato. Eu sentia muitas vezes, estando só com ela, a influência dessa força misteriosa, que residia em sua tez mimosa; mas só te poderei explicar o que eu sentia por uma imagem. 

Tens reparado na doce pubescência de que a natureza vestiu certos frutos? Se a nossa mão a alisa, experimenta uma sensação aveludada; se ao contrário a erriça, o tato é áspero. 

Assim era o pudor de Emília. 

Olhos puros e castos podiam espreguiçar-se docemente por sua beleza, porque uma serena candidez a aveludava então. Ao mais leve rubor porém a alma de quem a contemplasse magoava-se na aspereza daquela formosura, tão suave há pouco. 

Não era preciso que Emília dissesse uma palavra ou fizesse um gesto para recalcar no intimo o pensamento ousado que mal despontara. Uma dor intima acusava-me de a ter ofendido, antes que eu tivesse a consciência disso. 

Nunca se adorou de longe, na pureza do coração, com respeito profundo e um severo recato, como eu adorava Emília nas horas que tantas vezes passamos a sós, perdidos naquela solidão, onde não encontrávamos criatura humana. 

Avalia do excessivo melindre de Emília por dous fatos que te vou contar. 

Um dia, repetindo esse passeio da montanha, ela quis atravessar o leito empedrado de um córrego que se precipitava pela frágoa escarpada. Seu pé resvalou; ela ia espedaçar-se. Estendi os braços para ampará-la. Repeliu-me com violência, exclamando irada: 

—Deixe-me morrer, mas não me toque! Outra vez, uma noite de partida, eu dava-lhe o braço. Numa volta, a minha manga, inadvertidamente, mal roçou-lhe o marmóreo contorno do seio. Ouvi como um débil queixume, que exalaram seus lábios. Voltei-me. Estava hirta e lívida, presa de uma rápida vertigem. 

Aniquilou-me com um olhar de Diana; retirou o braço; deixou-me imóvel e pasmo no meio da sala. Uma semana não me quis falar. Quando afinal obtive o meu perdão, ainda me lembro do modo estranho por que me recebeu: 

—É a segunda vez que lhe tenho ódio! Soltando essa palavra, seu lábio túmido parecia sugar dela um gozo ignoto. As róseas narinas titilaram, enquanto os olhos velando-se, afogavam num fluido luminoso. 

Nessa mesma noite, como uma compensação do que a sua severidade me fizera sofrer, concedeu-me uma graça que eu nunca ousara esperar. 

Dançava-se. Emília sofria como sempre a vertigem do baile, que era poderosa em sua organização. 

Apesar da sutileza de beija-flor com que ela esvoaçava, não deixando as puras asas roçarem pelo mundo torpe, eu tinha ciúmes da graça que esparzia assim para todos. E sofria cruelmente, assistindo aos triunfos da sua beleza. 

Ela percebeu, e veio a mim : 

—Por que está triste? —Porque sou egoísta, e não tenho o direito. 

Emília sorriu: 

—A nossa amizade é uma flor multo suave para este clima da sala. Não lhe parece?... Por força há de sentir aqui. 

Fazia uma linda noite, sem luar. As copas escuras das árvores nadavam no azul diáfano, borrifado pela doce luz das estrelas. 

Emília recostou-se à janela, e enquanto falava, seus olhos se banhavam na suave limpidez do céu. —Como está, estrelada a noite!... Ali naquele silêncio a alma pode abrir-se; não é verdade? Não há rumor que a assuste, nem esse vapor que abrasa!... Eu gosto da noite!... É mais doce que o dia. 

(continua...)

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