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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Horácio a amava sem dúvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por ela uma paixão veemente. Ele, o rei da moda, o festejado conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; ele ali estava cativo da vontade dela, e atado ao seu carro triunfal. Que prova mais eloqüente de profundo amor, do que essa submissão espontânea do altivo leão?

A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com que se domina. Hércules, fiando aos pés de Onfale, é o último canto, o epílogo sublime da epopéia da forca humana. Exterminando a fera, a natureza e até os deuses, Hércules foi grande; abatendo a si mesmo, foi maior, porque venceu o vencedor.

Amélia compreendia que homenagem eloqüente à sua beleza havia naquela adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.

Mas lá no íntimo alguma coisa lhe remordia quando notava a pertinácia com que o olhar de Horácio procurava a fímbria de seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horácio não lhe tinha amor, e estava escarnecendo dela com uma paixão fingida.

A verdade, porém, é a que sabemos. Horácio tinha paixão louca pelo pezinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a corte a Amélia, ele prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquela forma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar os babados de seu vestido comprido demais, conheceu ele o zelo com que a dona recatava o tesouro. Contudo não desesperou; o cuidado da moça havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um acidente inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.

Até aquela noite todos os esforços se tinham frustrado; à sua insistência a moça tinha oposto a pertinácia do capricho feminino. Quanto mais atento ele estava para aproveitar qualquer descuido, mais alerta ela ficava para não cometer a mínima falta.

Horácio porém resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora à casa de Sales, no domingo em que estamos.

Quando se ofereceu ocasião, travou com Amélia, recostada à janela, o seguinte diálogo:

— Como é bonita! disse ele contemplando a moça com enlevo.

— Ainda não tinha percebido? perguntou ela com irônica faceirice.

— Não, D. Amélia, não; porque de cada vez a acho mais bonita; todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais formosa, do que era aquela que eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.

— Que tenho eu demais?

— Não sei; tem uma auréola de beleza! Seus olhos desferem raios de luz tão pura; sua boca sorri como a flor em botão, que abriu com a frescura da noite. Os anéis de seus cabelos castanhos parecem impregnados de um fluido misterioso, que se derrama em torno. Mas de toda a sua formosura há uma coisa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus lábios mimosos, nem seu talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!

— O que é então?

— Para que dizê-lo? Para que revelar a minha paixão a quem dela escarnece? Se eu o confessasse, cessariam o suplício que tenho sofrido, as ânsias que estou curtindo? Não; haviam de aumentar se isso fosse possível. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.

— Explique-se: confesso que não o entendo. Que suplício tem o senhor sofrido?

— A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquele que a ama sinceramente, e só por espírito de contradição. Uma coisa inocente, um favor pequenino... permite aos estranhos e indiferentes, e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ela. Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amélia, que suplício tenho eu sofrido. Este, de ser consumido a fogo lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!

A moça, com as faces incendidas em rubor, lutava no alvoroço e confusão, que iam se apoderando de toda sua pessoa.

— Entende agora, D. Amélia?

— Não! murmurou trêmula.

— Pois não percebeu ainda, que há uma coisa que eu sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o propósito de escondê-la a meus olhos, cansados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de ver-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrever de longe o objeto de minhas adorações?

O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.

— Para que negar, D. Amélia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.

— Eu, não!

— A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida sem hesitar. Se não soubesse, já eu teria visto e admirado esse pezinho mimoso, que me mata com seu rigor.

Uma visita que entrava na sala, deu a Amélia um pretexto para fugir, disfarçando seu rubor e perturbação, no afã da recepção das senhoras que chegavam.

(continua...)

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